• O Banco Central americano (FED) subiu os juros nos Estados Unidos para 2,50% ao ano, sinalizando mais altas até o fim do ano.
  • A principal causa é a inflação, que atingiu maior nível dos últimos 40 anos.
  • O que esperar daqui pra frente, e quais os impactos na maior economia do mundo, no Brasil e nos seus investimentos?
  • Confira no texto na íntegra.

Com o avanço da vacinação contra a Covid-19 ao redor do mundo e a retomada das atividades, a economia global passou a enfrentar uma de suas principais consequências dos desequilíbrios causados pela pandemia e por políticas para enfrentá-la: a inflação alta e, consequentemente, a alta dos juros.

Assim, a alta dos juros em resposta à alta de preços se tornou o principal motor por trás da volatilidade observada nos últimos meses em bolsas, moedas e ativos de renda fixa, especialmente vindo dos Estados Unidos.

A maior inflação dos últimos tempos

Como contamos nesse texto em mais detalhes, há vários motivos por trás da alta acelerada de preços que vemos hoje nas principais economias do mundo. Os principais incluem:

i) Os estímulos fiscais e monetários maciços implementados para enfrentar a pandemia da Covid-19 (como juros a quase zero e cheques de auxílio para famílias), que impulsionaram a demanda fortemente;

ii) A normalização da atividade econômica após a vacinação contra a Covid-19, com serviços voltando com força e retomando margens perdidas enquanto fechados;

iii) A invasão da Rússia na Ucrânia, dois players importantes de commodities, que ajudou a impulsionar o preço de bens básicos (as famosas commodities) no mundo, especialmente agrícolas e energéticos – principalmente o petróleo; e

iv) A política de Covid-zero do governo chinês, que agravou e prolongou os gargalos na produção e no escoamento de todo tipo de produto, elevando os preços de fretes e insumos industriais ao redor do mundo.

Como resultado, passamos a ver recorde atrás de recorde nos números de inflação ao redor do mundo. A começar pelo Brasil, nosso principal indicador de inflação está rodando acima de 10% ao ano, como contamos aqui em mais detalhes. Do outro lado do mundo, a Zona do Euro e o Reino Unido não ficam de fora, e a alta de preços segue batendo recordes da história recente.

Já nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor alcançou o maior patamar dos últimos 40 anos, acima de 9,0% e muito longe da meta de 2,0% do Banco Central do país.

O remédio amargo contra inflação alta: juros

Diante do desafio da inflação alta, Bancos Centrais ao redor do mundo reverteram a rota vista até então desde a eclosão da pandemia da Covid-19. Ou seja, passaram a reduzir os estímulos à economia com o objetivo de esfriar a atividade econômica, e assim, tirar pressão dos preços de bens e serviços.

Em bom português: o dinheiro abundante e crédito barato para “bombar” a economia deram lugar ao dinheiro mais escasso e ao crédito mais caro para “frear” a economia.

Quer entender mais sobre a relação entre juros e inflação? Te contamos nesse texto e nesse episódio do podcast Fala, Rico.

Nos Estados Unidos, esse processo ganhou força no começo desse ano, especialmente depois da eclosão da guerra russa e do fortalecimento da política de Covid zero na China, que deixaram claro que os preços altos de insumos básicos, como alimentos e petróleo, não cederiam tão cedo.

Ao mesmo tempo, a economia americana passou a mostrar sinais de superaquecimento, com famílias registrando níveis bastante altos de poupança e consumo, e um cenário em que há mais postos de trabalho abertos do que pessoas em busca de oportunidades. E quanto mais aquecida a economia, maior é a pressão sobre os preços.

Assim, o Banco Central americano – o famoso FED – começou a elevar os juros por lá, além de reduzir outros tipos de estímulos até então vigentes. Os Fed funds (taxa básica de juros americana), que ficaram no patamar de 0% – 0,25% ao ano durante o auge da crise pandêmica, atingiram 2,25% – 2,50% ao ano.  

Nossa expectativa é os juros básicos nos EUA alcancem 3,25% ao ano até o final deste ano.

Como juros mais altos nos EUA impactam o Brasil?

Como falamos, a alta de juros nos Estados Unidos tem trazido bastante volatilidade para os mercados no mundo todo.

Primeiro, porque juros mais altos significam maiores custos de financiamento no longo prazo para empresas, além da redução do preço considerado justo para ações, especialmente de empresas com grande parte do seu crescimento esperado no futuro. Essa dinâmica tem levado à queda das principais bolsas americanas, puxando também boa parte do mercado global. 

Além disso, o receio de que o processo de alta de juros acabe levando a maior economia do mundo para uma recessão tem ganhado força. Afinal, juros mais altos têm o objetivo de frear a inflação, mas o efeito colateral é um freio na própria economia.

Nesse contexto incerto, investidores ficam mais avessos ao risco, se afastando de investimentos mais arriscados, como em países emergentes – e afetando moedas como o real, que perdem valor com a saída de capital estrangeiro (como mostraremos abaixo)

Te contamos tudo sobre esse tema, incluindo possíveis impactos no Brasil, aqui.

Assim, o Brasil é impactado direta e indiretamente por esses movimentos. Porém, além disso, temos também outros impactos da alta de juros nos Estados Unidos que podem ser sentidos por aqui. 

Menor liquidez

A começar, juros em alta significam menor liquidez para o mercado. Isso significa menos dinheiro em busca de retornos no mundo; menos “abundância de capital”. Para um país onde mais de 50% dos investidores na bolsa são estrangeiros, você deve imaginar que a situação fica mais desafiadora.

Menor diferencial de juros

Maiores juros nos EUA reduzem a atratividade relativa de ativos em países mais arriscados, como o Brasil. Ou seja, menos investidores dispostos a tomar maiores riscos em busca de maiores retornos.

Isso ocorre devido a redução do chamado diferencial de juros. Esse diferencial é uma comparação de quanto um investidor ganharia investindo aqui no Brasil – considerando a nossa taxa básica de juros como base para retornos – e quanto ganharia dado a taxa básica de juros dos EUA, onde o risco é considerado um dos menores do mundo.

Em bom português: com juros maiores lá, investidores pensam um pouco mais sobre investir aqui ou outros países emergentes, onde o risco é maior.

Desvalorização cambial e inflação

Assim, quanto maiores os juros por lá (aliado a maior aversão ao risco de investidores, que falamos acima), maior a atração de capital. Logo, contribuindo para a desvalorização de outras moedas no mundo.

O gráfico abaixo ilustra bem essa dinâmica, destacando a valorização do dólar após sinalizações do FED de que os juros seguirão subindo, com destaque para países emergentes – que sofrem também com a recente perda de força das commodities, e são considerados mais arriscados, ampliando o efeito.

Vale notar que o real vem caindo mais que seus pares emergentes no período recente, refletindo o adicional de incerteza vindo do aumento da percepção de risco fiscal doméstico.

A desvalorização da nossa moeda, por sua vez, impacta a inflação por aqui (já que precisamos de “mais reais” para comprar produtos em dólares, como farinha de trigo). Deste modo, o rumo dos juros nos EUA também impacta o rumo dos nossos juros aqui.

Como investir com juros mais altos nos Estados Unidos?

Como falamos, o processo de alta de juros nos Estados Unidos tem impactado os mercados não somente por lá, mas também ao redor do mundo. Afinal, estamos falando da maior economia do mundo e do centro financeiro global.

Dito isso, vale lembrar que:

  1. O Brasil tem se beneficiado de parte desse contexto global, apesar de também sofrer com o processo de alta acelerada de preços e juros em alta. Em especial, a elevação do preço de commodities beneficia a economia brasileira, trazendo efeitos diretos (no setor agroexportador e indústria extrativa) e indiretos – como por meio do aumento de arrecadação, e impulso a setores correlatos, como serviços ligados à indústria extrativa e ao agronegócio.
  2. O movimento de busca por ativos sólidos e empresas que gerem valor no presente, conhecido como “rotação”, coloca a bolsa brasileira em posição relativamente positiva, especialmente considerando que a nossa bolsa segue barata em relação a padrões históricos e outros emergentes – como detalhamos aqui.
  3. Saímos na frente em relação ao aumento das taxas de juros no mundo, nos posicionando relativamente bem na batalha contra a inflação – a Selic hoje se encontra em 13,25% e os juros reais futuros (IPCA+) em torno de 6%.

Assim, o momento atual pede cautela, como contamos em nosso Guia Anti-Volatilidade. Atitudes como manter um caixa fortalecido para boas oportunidades e imprevistos, sua carteira diversificada e protegida contra a inflação e o foco em retornos de longo prazo serão seus maiores aliados.

E para saber exatamente Onde Investir nesse cenário de acordo com seus objetivos e perfil de investidor, confira nossas recomendações aqui.

Elaborado por:

Paula Zogbi, CNPI 2545

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