O UBS, maior banco da Suíça, concordou após negociações em comprar o Credit Suisse no domingo (19) por US$ 3,25 bilhões. O acordo cria um dos maiores bancos da Europa, com quase US$ 1,7 trilhão em ativos totais.

Durante o final de semana, o Swiss National Bank (banco central suíço) e a Finma (instituição de regulação financeira no país) intermediaram as negociações, que incluem uma linha de liquidez de 100 bilhões de francos suíços apoiada por uma garantia de inadimplência federal. Em outras palavras: a compra foi intermediada e apoiada financeiramente por reguladores do país.

Nas últimas semanas o sistema bancário global vem sendo foco de investidores ao redor do mundo, especialmente após o anúncio da falência do Silicon Valley Bank e do Signature Bank — ambos nos EUA. Nesse cenário, o acordo foi importante para evitar uma crise de confiança que poderia se espalhar pela Europa e Estados Unidos. A secretária do Tesouro americano e o presidente do Federal Reserve, o banco central do país, destacaram em um comunicado conjunto que receberam positivamente os anúncios das autoridades suíças para apoiar a estabilidade financeira no país e no mundo.

E os bancos brasileiros?

Assim como falamos na análise do caso do SVB, entendemos que a situação financeira dos bancos brasileiros é sólida, com indicadores saudáveis de empréstimo por depósitos, margem com mercado, títulos mantidos até o vencimento e indicador de liquidez de curto prazo (LCR). Portanto, não esperamos que os eventos recentes contagiem os bancos brasileiros.

Ao mesmo tempo, a própria existência de Letra Financeira do Tesouro (ou Tesouro Selic), títulos pós-fixados emitidos pelo governo, traz um nível adicional de proteção aos balanços dos bancos. Afinal, tratam-se de títulos cujo preço passa por bem menos volatilidade (por terem seu retorno atrelado a taxas pós-fixadas), que apresentam alta liquidez e tendem a sofrer menos em ciclos de alta de juros — como o atual.

Por outro lado, a turbulência no sistema bancário global pode levar a um aumento da percepção de risco em relação ao setor, que já havia sido afetado no início deste ano por eventos desfavoráveis de crédito privado, impulsionados pelo caso Americanas.

Assim, a soma desses eventos que temos visto ao redor do mundo pode resultar em um aumento da volatilidade das ações de bancos negociadas aqui no Brasil.

O que aconteceu com o Credit Suisse?

A crise atual teve seu estopim na semana com início em 13 de março, quando as ações do CS chegaram a cair 24,2% em um único dia, depois do Saudi National Bank, seu maior acionista, anunciar que deixaria de injetar capital no banco por terem atingido o limite máximo regulatório. O pessimismo contaminou outros bancos europeus e chegou às bolsas globais, que já vinham receosas com a recente turbulência no sistema bancário americano impulsionada pela quebra do SVB.

Os dois casos, no entanto, são bem diferentes e não estão diretamente ligados. Enquanto o SVB colapsou por fatores específicos do banco, como base de clientes concentrada e má gestão entre ativos e passivos no balanço do banco, o caso do Credit Suisse é resultado de uma série de eventos e um processo de reestruturação da empresa.

O banco esteve envolvido em crises, entre elas a falência do hedge fund Archegos Capital em 2021 — que levou a uma perda de quase US$ 5 bilhões.

Em 2022, o CS anunciou um plano de recuperação com prazo de três anos, envolvendo corte de custos e restruturação do banco de investimento. O objetivo do movimento foi voltar a focar no negócio de wealth management, isto é, a gestão de patrimônio de famílias.

As incertezas sobre o negócio já refletiam no aumento da percepção de risco do Credit Suisse pelas agências de rating, que avaliam empresas globalmente. O banco passou por vários rebaixamentos seguidos, mostrando que as casas já viam certa deterioração na qualidade de crédito da instituição.

Com toda essa sequência de crises, a ação do banco já cai mais de 90% desde o pico e hoje negocia nas mínimas históricas.

Assim, após uma série de eventos e fatores envolvendo a gestão e o negócio da instituição e em meio a um cenário de juros em alta e redução da liquidez global, chegamos à decisão de intermediação por parte de autoridades reguladores suiças da compra do Credit Suisse por seu conterrâneo, o UBS.

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Impactos na economia global

É comum que muitos investidores tracem paralelos entre o que estamos vendo agora e o que vimos na crise de 2008, se indagando: será que teremos outra crise financeira global, como vimos acontecer há 15 anos? Como bem sabemos, a crise que começou no coração do mercado imobiliário americano acabou cascateando para uma grande crise financeira (envolvendo muitas instituições além de bancos), e uma grave crise econômica.

Por ora, tudo aponta que não viveremos as mesmas consequências.

Primeiro, porque evoluímos muito em termos de regulação do sistema bancário desde a eclosão da crise de 2008. Tanto à nível doméstico quanto global, a regulação do sistema financeiro e bancário se tornou mais rigorosa, elevando o escrutínio e o detalhamento de regras e boas práticas, justamente para evitar nossas crises naquela proporção. A criação do arcabouço da Basileia III é exemplo disso.

Além disso, a rápida atuação de governos e reguladores (como vimos nos Estados Unidos e na Suiça) tem ajudado a estancar uma crise de confiança entre investidores, reduzindo a possibilidade de uma nova corrida bancária ou crise mais generalizada ao redor do mundo.

Enquanto isso, do ponto de vista macroeconômico, um dos possíveis impactos dessa crise pode ser justamente na postura dos Bancos Centrais do mundo. Na Zona do Euro, a última reunião do Banco Central Europeu destacou que a alta de juros segue firme, mas já trouxe certo tom mais “flexível” diante dos acontecimentos recentes. Ou seja, pode ainda impactar a atuação do banco em relação aos juros nos próximos meses.

Já nos Estados Unidos, como contamos aqui em mais detalhes, o Fed segue firme em seu tom bem duro contra a inflação desde o início da forte alta de juros. Porém, investidores já alimentam expectativas de que o momento de encerrar o ciclo de alta na taxa básica de juros se encerre antes do que o esperado, não se mantendo “tão altas por mais tempo”.

Assim, caso a crise seja contida em breve e não gere maiores efeitos no sistema bancário global e americano, não devemos esperar uma mudança de postura do Fed. Por outro lado, caso a incipiente crise se estenda, de modo a tornar-se um desafio sistêmico, podemos ver uma mudança de postura do Fed — e até uma possível reversão do aperto monetário, na direção da redução dos juros.

Afinal, a elevação dos juros está no cerne de toda essa crise, como falamos até aqui.

Impactos no Brasil

Quando pensamos em impactos no Brasil, é claro que uma crise mais generalizada poderia nos impactar de maneira negativa. Afinal, não somos isolados do mundo! Além disso, o sentimento de aversão ao risco entre investidores tende a ser mais sentido em países emergentes, considerados mais arriscados, como nós aqui no Brasil, e uma desaceleração na economia global pode derrubar preços de commodities — também nos prejudicando.

Já em relação ao cenário de juros por aqui, a crise adiciona certo grau de incerteza. Por um lado, uma pausa nos juros no mundo desenvolvido e nos EUA (ou até mesmo reversão de altas) pode contribuir para menores pressões de juros por aqui. Porém, por outro lado, um cenário de maior aversão ao risco, “fuga para ativos de qualidade” e forte desaceleração global podem pesar negativamente em nossos ativos e nos preços de commodities — impactando nossa taxa de câmbio, e consequentemente a inflação.

Dito isso, vale lembrar que nosso sistema financeiro segue em sua grande maioria sólido e líquido, nos trazendo relativa estabilidade — conforme falamos acima.

Elaborado por:

Bruna Sene, CNPI-T 1847

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