• A inflação alta se tornou uma das principais preocupações de economistas e famílias ao redor do mundo.
  • A pressão sobre os preços causada por desequilíbrios fruto da pandemia só ganhou mais força com a eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia.
  • Com o cenário incerto sobre o crescimento da economia no Brasil e no mundo, ganha também cada vez mais força a pergunta: será que entramos em um período de estagflação?
  • Nesse texto, te contamos o que é estagflação, quais seus impactos na economia, e como proteger seus investimentos desse cenário incerto.

No último ano, o fantasma da inflação entrou no rol de preocupações que atrapalham o sono não somente dos brasileiros, mas de todos ao redor do mundo.

Como fruto de desequilíbrios causados especialmente por respostas para combater a pandemia, a inflação no Brasil passou a barreira dos 10% ao ano, enquanto os Estados Unidos amargam os maiores níveis em 40 anos (perto de 8%), e até mesmo a Europa que já nem sabia mais o que era inflação, já vê a alta de preços alcançar a máxima histórica, em quase 6%.

Foi então que a guerra entre Rússia e Ucrânia surpreendeu a todos, ampliando ainda mais a onda inflacionária – por envolver dois grandes produtores de diversas matérias primas e insumos básicos, como petróleo, alimentos e fertilizantes (para produção de alimentos).

Te contamos mais sobre como a dinâmica da guerra reduz a oferta e eleva o preço de commodities no mundo aqui.

Assim, temos a combinação de inflação alta (que corrói o poder de compra de consumidores), aumento de incertezas e alta de juros para tentar conter os preços (tornando o crédito mais caro).

O resultado disso? Crescimento econômico esperado mais baixo.

Nesse contexto, tem ganhado força a seguinte pergunta: será que vivemos o que os economistas chamam de “estagflação”? Ou seja, inflação alta e estagnação da economia, ou até mesmo recessão?

Estagflação: o que é, e de onde vem?

Normalmente, períodos de inflação mais alta são acompanhados por momentos de crescimento econômico (excessivo). Isso ocorre, pois quando a demanda por bens e serviços cresce além da capacidade da economia de produzir, em algum momento (quando não há mais produção “sobrando”, ou seja, capacidade ociosa), os preços começam a subir.

Em outras palavras, uma economia aquecida, onde todo mundo está com dinheiro e querendo comprar, mas não deu tempo ainda de produzirem tudo isso: o preço sobe.

Porém, sob certas condições, acontece uma combinação pior: preços em alta e desaceleração econômica ao mesmo tempo – com o primeiro sendo a causa do segundo.

Foi essa combinação que ocorreu na década de 1970 nos países desenvolvidos, quando o termo “estagflação” foi cunhado.

O choque de petróleo das décadas de 1970-80

No final de 1973, países membros da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) passaram a regular a venda de sua produção de petróleo. Ou seja, criaram um cartel com o objetivo de controlar os preços ao determinarem a quantidade produzida. Quanto menos petróleo produzissem, menor a oferta no mundo, e maiores os preços.  

A criação da OPEP e o controle da produção fez com o que o preço do petróleo multiplicasse por quatro no intervalo de três meses. Colocando ainda mais lenha na fogueira da inflação, entre 1979 e 1980, uma nova crise geopolítica elevou ainda mais os preços da commodity – que subiu de U$S 13 para US$ 38 o barril.

Bem inelástico: o que é?

Mas como foi possível que o preço do petróleo subisse tanto? As pessoas não pararam de comprar? Acontece que a economia global era tão dependente da energia provida pelo petróleo (ainda mais do que hoje), que os preços seguiram subindo, conforme a produção caía – e o combustível se tornava mais escasso nos mercados.

Em economês, dizemos que o petróleo é um bem inelástico. Ou seja, a alteração no preço tem pouco impacto na demanda pelo produto. Isso segue sendo realidade até hoje para muitas commodities, incluindo o petróleo, mesmo com avanços em combustíveis alternativos.

Com a elevação do preço do petróleo, os preços de produtos à base da commodity também aumentaram, como a gasolina. Isso levou a um efeito cascata de maiores custos na economia, especialmente por meio do maior custo de transportes, resultando em um aumento generalizado do preço de outras mercadorias.

Assim, a inflação aumentou repentinamente, ao mesmo tempo em que a produção recuava, diante da elevação dos custos ao longo da cadeia produtiva. De maneira simplificada:

Como resultado, a economia americana entrou em um período de forte queda da produção. Como podemos ver no gráfico abaixo, o PIB do país chegou a contrair mais de uma vez entre o início da década de 70 e 80 – ou seja, entrando em recessão.

Estagflação em 2022: versão reload

O episódio da crise do petróleo da década de 1970 ilustra bem a diferença entre um processo de inflação tradicional e a “estagflação”. Enquanto a primeira é gerada por um superaquecimento da demanda, a segunda é resultado de um choque de custos, ou seja, pelo lado da oferta.

Olhando para esse contexto histórico, conseguimos notar a principal semelhança com o momento atual: um choque de custos global impulsionado por uma crise geopolítica, impactando a inflação que (dessa vez) já vinha alta.

Os vilões atuais: alimentos e energia

Para se ter uma ideia da magnitude do choque de custos atual, os preços das commodities agrícolas já acumulam alta de 47% desde o início de 2020. Esse número deve crescer ainda mais, devido ao impacto das sanções econômicas contra a Rússia e à própria paralisação de produção ucraniana.

Mas não são só alimentos que subiram de preço. Outro grupo que viu seus preços numa escalada foi o setor energético. Grande parte da energia que abastece a indústria europeia sai da Rússia, principalmente o gás natural russo, que por meio de gasodutos, cruzam a Ucrânia e a Polônia e chegam à Alemanha, França e Itália.

Resultado disso é a inflação espalhada no mundo todo, concentrada na alta de energia e alimentos, e com perspectivas de continuar subindo. O gráfico abaixo ilustra bem a dinâmica de alta de preços desde o início da pandemia da Covid-19.

O mundo vai enfrentar uma recessão?

Ainda é cedo para responder a essa questão com certeza, tanto por ainda não termos dados suficientes para confirmar uma efetiva desaceleração econômica nos países, quanto pela incerteza sobre o desfecho do conflito entre Rússia e Ucrânia. Quanto mais o conflito perdurar, maiores os impactos negativos para a economia global.

Mas já podemos ter algumas pistas. Indicadores antecedentes (que antecedem dados mais concretos de produção econômica), por exemplo, como índices de confiança, já apontam para o impacto negativo dos preços em alta no mundo – como podemos ver abaixo.

Ao mesmo tempo, já começamos a ver revisão nas projeções de crescimento esperadas por analistas.

A OCDE (Organização para Cooperação Econômica e Desenvolvimento) calcula que o crescimento do PIB global deve ser 1pp menor por conta da guerra, que deve elevar a inflação no mundo em 2,5pp no ano.

Já o FMI (Fundo Monetário Internacional) entende que deve reduzir suas projeções de crescimento entre 5% e 15% nos próximos meses, a depender do país e de quanto durar o conflito.

E no Brasil, teremos recessão?

Como no resto do mundo, o Brasil já sente os efeitos da guerra no preço de bens mais sensíveis, como combustíveis e alimentos. Aqui na Rico, esperamos que a inflação termine esse ano bastante acima da meta do Banco Central – em 6,2%, podendo inclusive chegar a 8% a depender também do desenrolar da guerra.

E essa inflação alta será acompanhada por uma economia estagnada.  

A economia deve até crescer no início desse ano, mas perder força ao longo da segunda metade de 2022. A queda da renda dos trabalhadores, inflação persistentemente alta e efeitos dos juros altos (justamente para controlar os preços) explicam perda de fôlego.

Assim, apesar de vermos alguma melhora em setores que ainda se recuperam da pandemia (em serviços), além de parte do agronegócio se beneficiando do cenário de alta de preços de commodities, o choque de custos deve nos atingir de maneira relevante por aqui também.

E a estagflação deverá ser uma realidade no ano de 2022.

Estagflação: como proteger meus investimentos?

Diante do cenário desafiador, sempre vale destacar a importância da diversificação nos seus investimentos. Ou seja, ter ativos variados entre classes, países, e estratégias certamente seguirá sendo seu maior porto seguro.

Te explicamos a importância da diversificação nesse vídeo.

Dito isso, vale destacar a proteção contra a alta de preços, que se torna mais essencial do que nunca em um ambiente inflacionário. Títulos indexados à inflação, como Tesouro IPCA + 2026, debêntures indexadas a inflação (IPCA+) de empresas sólidas com vencimento médio de até 5 anos, e fundos de inflação (fundos de investimento que investem em ativos indexados à inflação) são ótimas alternativas. Falamos mais das melhores oportunidades de renda fixa aqui.

Os ativos reais também ficam especialmente interessantes nesse momento.  Esses ativos costumam ter baixa correlação com ciclos econômicos e inflação, como commodities minerais e agrícolas, metais preciosos e criptoativos. Uma alternativa simples para acessar esses investimentos é por meio do eTrend Ativos reais.

Finalmente, também vale destacar alternativas da bolsa. Aqui, selecionamos ações de empresas vistas como de alta qualidade, com margem superior aos seus pares, endividamento baixo, crescimento de lucro e a preços atrativos.

Lembre-se sempre de respeitar seus objetivos, horizontes de investimento e perfil de investidor. Confira aqui nossas recomendações completas para cada perfil em março. 

Elaborado por:

Paula Zogbi, CNPI 2545

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