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Nasci depois da época em que esse comercial passava na TV, mas muita gente aqui deve estar familiarizada com o “paradoxo Tostines”: vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? (assista aqui a esses 14 segundos imortais da publicidade brasileira). 

Eis que o “papa do valuation”, Aswath Damodaran, fez um texto na semana passada que abriu meus olhos para o “paradoxo Tostines” no universo ESG (ambiental, social e governança)as empresas que são ESG ganham mais dinheiro ou as maiores empresas conseguem endereçar melhor as questões ESG justamente por ter mais dinheiro?

Um trecho diz o seguinte:

“As companhias têm melhor performance porque são empresas socialmente conscientes (boas) ou as empresas que estão se saindo melhor têm maior facilidade para fazer o bem? Simplificando, se as métricas ESG são baseadas em medidas de que as empresas que estão se saindo melhor – seja operacionalmente, seja nos mercados – podem performar mais que as companhias que se saem pior, os pesquisadores descobrirão que ESG e performance se movem em conjunto, mas é a boa performance que está permitindo que empresas façam o bem socialmente”.

Antes que você assuma que o papa do valuation odeia o meio ambiente ou a sociedade, é importante entender o “x” da questão: ele não está criticando as práticas ESG em si, mas, indiretamente, o que chamamos de “greenwashing” – a prática de propagandear boas ações (ou agir de forma responsável por marketing) sem de fato incluir o ESG dentro de casa de forma que gere valor no longo prazo. A pergunta principal do texto é: “soando bem ou fazendo o bem?”.

Ele explica que é inegável que cada vez mais dinheiro no mundo sendo direcionado a financiar negócios ESG (globalmente, já são mais de 1 trilhão de dólares em fundos do tipo), mas argumenta que existe um problema em se tornar “líder de torcida” pela causa: isso pode fazer, do lado do investidor, com que deixemos de avaliar as empresas racionalmente para premiar discursos.

(Gráfico retirado do blog de Damodaran com dados da Morning Star que mostram o crescimento dos fundos sustentáveis, principalmente nos meses de pandemia)

E do lado das empresas em si, pode levar a altos gastos desnecessários para propagandear causas ESG na aparência sem que consigam aplicar esses conceitos da porta para dentro de maneira sustentável. No fim das contas, investir em uma empresa falida, mas que diz ter boas intenções, não leva a lugar algum.

“[Empresas que iniciam suas operações sendo vocais em ESG] enfrentarão um desafio, se forem bem-sucedidas e quiserem crescer, porque o crescimento trará clientes e investidores não tão comprometidos com ESG. O teste ácido da consciência social ocorre quando uma empresa cresce e deve decidir se continua a crescer ou se aceita um teto mais baixo para o crescimento, e talvez um valor mais baixo, a fim de preservar seu bom status como empresa”, dispara o texto. 

Não devo me importar com ESG, então?

Longe disso. Aqui, pego emprestadas palavras da Marcella Ungaretti, analista ESG da XP, em seu relatório ESG de A a Z: “em um momento como o que estamos vivendo atualmente, em que todos os olhos estão voltados para a importância de se ter boas práticas ESG, acreditamos que é necessário uma atenção redobrada visando diferenciar o que é somente um discurso do que é a prática”.

E as empresas que se mostrarem mais legítimas nessa métrica podem ser, sim, beneficiadas, segundo Damodaran – mas não por crescer mais rápido, e sim porque as demais serão “punidas”: investidores pedirão mais prêmio para investir nessas companhias, seja por meio de equities (ações) ou dívida. No fim das contas, vai ser mais caro operar um negócio sem aplicar práticas sustentáveis e responsáveis. 

O problema é a generalização irresponsável. “Algumas empresas podem se beneficiar por fazer o bem, mas muitas delas não se beneficiam. Dizer para as empresas que ser responsável socialmente resultará em mais crescimento, lucros e valor é propaganda enganosa”, explica.

“A evidência mais forte é que as empresas ‘ruins [em termos de ESG]’ serão punidas, ou com custos mais altos de financiamento ou com mais incidências de desastres e choques. Resumindo, gestos caros de empresas de capital aberto para parecerem ‘boas’ são inúteis, tanto em termos de melhoria de desempenho quanto de geração de retornos”.

Não à toa, segundo a Marcella, a meta da sua área de research em ESG é que um dia ela deixe de ser uma vertical independente da equipe de análise e se torne parte da integral da pesquisa desde o início: não adianta avaliar empresa alguma apenas sob essa ótica, então o ideal é que ela permeie todas as etapas do processo de valuation e, assim, premie as empresas em que essa visão faz mais sentido. 

No fim das contas, não importa se a empresa cresce mais porque é verdinha ou se é verdinha porque cresce mais: “os cidadãos em busca de soluções para curar os males prementes da sociedade não devem apelar apenas para o retorno financeiro para mobilizar o envolvimento corporativo”, diz um estudo citado no texto. Se quiser ler a postagem completa, clique aqui.