Não seja pego de calças curtas!

Only when the tide goes out do you discover who’s been swimming naked”, Warren Buffett.

Projeções macroeconômicas são importantes para todo investidor, porque ajudam a nos prepararmos para o que vem adiante. Ou seja, não ser pego de “calças curtas”, especialmente em momentos desafiadores para os investimentos.

Isso não significa que você saberá “o dia exato em que o dólar vai cair ou subir”. Pois isso, infelizmente, será praticamente impossível. Mas quer dizer que você entenderá melhor as tendências da economia e poderá pensar em como adaptar seus investimentos (ou manter tudo como está, se for o caso), pensando no seu perfil e objetivos.

Com isso em mente, detalhamos abaixo nossas principais projeções para este ano e o próximo. Abaixo, te contamos o porquê de tudo isso, e como investir nesse cenário.

Onde estamos? Juros altos, até quando?

No mundo, a pergunta que segue dominando os mercados é: “quando os juros vão começar a cair?”. Depois de um ano de 2023 marcado pelo questionamento sobre o limite de alta de juros em países desenvolvidos, a tônica de 2024 passou a ser o momento de virada na política monetária em grande parte do mundo – ou seja, quando Bancos Centrais passarão a cortar os juros, diante de um comportamento mais benigno da inflação no mundo?

Embora ainda siga no radar de riscos, a inflação entrou enfraquecida em 2024. Nos Estados Unidos, a inflação ao consumidor (medida por seu núcleo, excetuando preços mais voláteis) cedeu para 2,9% no ano fechado de 2023 – patamar ainda acima da meta do Banco Central (de 2,0%), mas bem abaixo dos aproximadamente 6,0% registrados um ano antes.

Já na Zona do Euro, a inflação se aproxima da meta (de também 2,0%), com o principal indicador de preços ao consumidor acumulando 2,8% em doze meses até janeiro de 2024.

A recente queda no preço de commodities favorece o cenário de desaceleração da inflação. Depois de ficarem praticamente estáveis ao longo de 2023, o preço de alimentos e outros insumos básicos entraram em forte tendência de queda – movimento que foi apenas parcialmente revertido no começo desse ano. Para ilustrar, o Índice Geral de Commodities CRB recuou 8% (em dólares) desde o final de setembro, puxado por preços de gasolina, açúcar, leite, entre outros.

Em bom português: preços de matérias primas estão em baixa (mesmo após a leve alta recente), e isso ajuda no controle da inflação.

Nesse cenário, ganharam força no primeiro mês desse ano expectativas de que os juros comecem a cair em breve. Afinal, com inflação cedendo e perspectivas de que preços de bens essenciais sigam comportados, como commodities e petróleo, Bancos Centrais não precisariam – na visão de muitos – segurar os juros altos por muito mais tempo.

Vale lembrar que juros altos têm o objetivo de controlar a alta de preços, encarecendo o crédito e desincentivando o consumo, desaquecendo a economia e a demanda por bens e serviços.

Não acreditamos, entretanto, que essa queda dos juros deva começar tão cedo ou em ritmo acelerado, especialmente nos Estados Unidos. A economia ainda resiliente, o mercado de trabalho aquecido e os salários crescendo acima da média histórica contribuem para uma visão de cautela sobre o ritmo de alta de preços adiante – e, portanto, sobre os próximos passos do Banco Central na maior economia do mundo.

Além disso, a piora recente do cenário geopolítico no Oriente Médio traz riscos ao horizonte. O recrudescimento do conflito militar entre Israel e Hamas, com a atuação do grupo político-religioso Houthis frente a embarcações comerciais no Mar Vermelho, tem pressionado o preço dos fretes marítimos em uma rota essencial entre o Ocidente e o Oriente.

Para se ter uma ideia, o preço desse tipo de transporte mais do que dobrou desde dezembro do ano passado – impactando o preço de diversos bens transportados pela região.

A escalada das tensões na região também tem pressionado os preços de petróleo, contribuindo para interromper parte da tendência de queda nos preços de commodities – conforme falamos acima.

Nesse cenário, esperamos que o Fed (Banco Central americano) comece a reduzir os juros em maio. 

Enquanto isso, do outro lado do mundo, a China deve seguir lutando contra um crescimento mais fraco em 2024. O país ainda enfrenta desafios para retomar um ritmo de crescimento robusto, diante de uma crise no setor imobiliário e baixa confiança entre investidores, produtores e consumidores. Nesse cenário, mesmo com esforços do governo em impulsionar setores como de educação e tecnologia e estímulos diretos ao mercado, o crescimento nesse ano (e nos próximos) deve ser mais fraco do que os fortes saltos vistos nos últimos 20 anos.

Vemos o impacto dessa desaceleração, entretanto, como limitado para a economia brasileira. Entendemos que nossas exportações devem seguir fortes para o país asiático em 2024. Essa dinâmica deve seguir contribuindo para a manutenção das nossas contas externas sólidas (ou seja, com vendas para o mundo sólidas, em comparação com nossas importações) e do real relativamente valorizado no ano. Falaremos mais sobre nossa visão positiva para o real abaixo.

Enquanto isso, no Brasil

2024: economia pode surpreender novamente

Por aqui, a economia surpreendeu crescendo acima do esperado em boa parte de 2023. Depois de um resultado forte no terceiro trimestre, os dados mais recentes referentes ao fim do ano passado indicam que a economia seguiu relativamente forte na virada de 2023.

Para ilustrar, o setor de serviços cresceu novamente em dezembro, depois de quedas observadas entre agosto e setembro. Na mesma linha (embora um pouco mais fracas), as vendas no comércio varejistas seguiram resilientes no quarto trimestre de 2023, impulsionadas em grande medida pelo consumo de bens não duráveis. Vale lembrar que o ainda alto nível de endividamento das famílias e juros elevados enfraquecem o consumo de bens que demandam maior acesso ao crédito.

O mercado de trabalho aquecido, programas de benefício fiscal (que viram forte elevação desde meados de 2022) e a queda da inflação ajudam a explicar a boa performance da economia depois do fim dos impactos da supersafra agrícola da primeira metade de 2023. Para se ter uma ideia, o desemprego encerrou 2023 no patamar mais baixo desde o início de 2015, em 7,5%.

A forte produção da indústria extrativa – especialmente de petróleo e minério de ferrotambém contribuiu para o que deve se concretizar como uma elevação de 3,0% do PIB em 2023. O número fechado do ano será divulgado em março.

Olhando para frente, o ano de 2024 deve contar com crescimento menos robusto. O crescimento mais fraco do setor agrícola, que deve registrar queda nesse ano (em comparação com o salto do ano anterior), além de um crescimento global relativamente fraco, devem pesar contra uma alta mais forte do PIB esse ano. 

Dito isso, a economia deve seguir resiliente, podendo crescer acima dos 1,5% que projetamos atualmente. Isso porque:

i) o mercado de trabalho deve continuar aquecido, impulsionando salários (acima da inflação);

ii) os juros em baixa já começam a fazer efeito na economia, melhorando as condições de crédito para empresas e famílias;

iii) a inflação deve continuar caindo, beneficiando a renda real das famílias; e

iv) a decisão do governo de pagar os precatórios até então adiados para 2027 vai injetar uma quantia relevante na economia (a quem tiver valores a receber de processos judiciais contra o governo).

Já para 2025, os efeitos dos juros em queda ainda sendo sentidos na economia e a retomada no cenário global devem impulsionar uma alta de 2,0% do PIB.

Inflação segue perdendo força, sustentando queda nos juros

Como contamos em detalhes aqui, o IPCA (nosso principal índice de inflação ao consumidor) encerrou o ano de 2023 com alta de 4,62%. Embora acima da meta de 3,25% do Banco Central, o resultado ficou dentro do intervalo de tolerância previsto pela política de metas de inflação – existente justamente para acomodar choques imprevistos nos preços, como uma pandemia ou um evento climático.

Quer saber mais sobre a política de metas de inflação? Te contamos aqui!

Já em janeiro, o IPCA registrou alta de 0,42%, impulsionado principalmente por preços de alimentos – impactados pelos efeitos do fenômeno climático El Niño – e outros itens mais voláteis, como perfumes.

Olhando para frente, o processo de desinflação observado ao longo de 2023 deve continuar em 2024. No mundo, os preços de bens industriais – como carros, eletrodomésticos e máquinas – devem seguir subindo lentamente ou mesmo em queda. O enfraquecimento do preço de commodities industriais, como comentamos acima, explica boa parte dessa dinâmica benigna para a inflação. 

Os preços dos alimentos também deves desacelerar a partir do segundo trimestre desse ano, refletindo a dissipação dos efeitos do El Niño e de uma produção ainda forte de grãos – que impacta diretamente a produção de proteínas.

Vale destacar que um processo de desinflação é diferente de um período deflacionário – em que os preços efetivamente caem. Dito isso, os resultados recentes foram marcados pela queda de alguns preços, em especial de alimentos, em um movimento explicado por fatores climáticos, técnicos e pela forte produção agrícola no país.

É claro, entretanto, que ainda existem riscos para esse cenário benigno para os preços no ano. No ambiente global, a piora do conflito no Oriente Médio – como falamos acima – coloca em risco a tendência de queda nos preços de commodities e, consequentemente, de bens industriais.

Já por aqui, a inflação de serviços ainda preocupa. Vale lembrar que os preços no setor não são impactados por movimentos que chamamos de “oferta” (como o clima e a redução ou aumento da oferta de determinada commodity); e sim, pelo comportamento dos salários, além de, claro, o nível de demanda na economia.

Assim, com um mercado de trabalho aquecido e políticas de aumento de gastos por parte do governo (o que impulsiona a demanda), a luz amarela para esses preços segue acesa.

Nesse cenário, projetamos que o IPCA encerre 2024 em 3,7% e em 4,0% em 2025 – ambos acima da meta do Banco Central, mas dentro do seu limite superior.

Selic deve continuar caindo até 9,00% ao ano

Como contamos aqui,o Copom (nosso comitê de política monetária) optou por reduzir a taxa Selic em 0,50 ponto percentual em sua primeira reunião de 2023, em 31 de janeiro. A decisão deu continuidade ao processo de queda de juros iniciado em agosto, levando a taxa para 11,25% ao ano.

Em um recado que não trouxe muitas mudanças de tom, o Copom reforçou que o cenário segue consistente com a continuação dos cortes da taxa Selic. Em bom português: eles seguirão cortando os juros, a não ser que algo mude o cenário doméstico e global esperado.

No cenário internacional, os diretores do Banco Central destacaram que o ambiente segue volátil, mas que a queda recente no preço de commodities ajudam no controle da inflação – no Brasil e no mundo. Dentre os riscos, o Copom destacou a situação no Oriente Médio e o potencial repique de preços impulsionados por fretes marítimos.

Já por aqui, o Copom reconheceu os avanços no processo de enfraquecimento da inflação. Mas o “jogo contra a alta de preços ainda não está ganho”e requer cautela. Como riscos adiante, o Banco Central destacou a forte alta dos salários observada em 2023 e esperada para esse ano, e o comportamento dos preços no setor de serviços.

Vale lembrar que o mercado de trabalho aquecido tem pressionado os salários, e que o setor de serviços é o que mais emprega na economia. Ou seja, um movimento impulsiona o outro.

Além disso, não podemos esquecer do risco fiscal. Afinal, se o governo gastar muito além do que arrecada e sinalizar que seguirá impulsionando a economia, muitos entenderão que os preços seguirão pressionados adiante – influenciando efetivamente o nível da inflação no futuro.

A deterioração do risco fiscal também tende a impactar a nossa moeda, uma vez que essa é percebida como mais arriscada. Um real mais desvalorizado adiciona pressão sobre a inflação, uma vez que boa parte do que consumimos e produzimos inclui insumos negociados em dólares ou mesmo produtos importados.

Assim, vemos a Selic caindo para 9,00% até o final deste ano, no que acreditamos que será um processo gradual de redução de juros. Isso significa que os juros devem cair até o patamar considerado como neutro – ou seja, tirando o pé do freio da economia, mas ainda sem acelerar.

E o dólar, vai para onde?

Nos últimos meses, assistimos a uma forte volatilidade do dólar por aqui. Depois de fechar o ano de 2023 abaixo de R$/US$ 4,90, a nossa taxa de câmbio começou o ano pressionada, flertando com a barreira dos R$/US$ 5,00.

Acreditamos que o recente “vai e vem” da nossa moeda refletiu tanto movimentos globais quanto domésticos.

Lá fora, destacamos:

  1. a forte alta das taxas de juros de longo prazo nos Estados Unidos e a sinalização de que os juros básicos devem seguir historicamente altos, mesmo após o início de cortes graduais – movimento que tende a fortalecer o dólar frente a outras moedas, por atrair capital em busca de maiores retornos; e
  2. maior aversão ao risco global, com o aumento dos riscos geopolíticos ao redor do mundo, especialmente com a escalada das tensões no Oriente Médio (como falamos anteriormente).

Já no cenário local, a frequente incerteza com relação à dinâmica das contas públicas segue uma “sombra” sobre a nossa moeda. Afinal, como contamos nesse texto em detalhes, incertezas político-fiscais tendem a levar a um aumento da precificação de risco de investir por aqui – o que é “descontado” na nossa moeda.

Dito isso, o ano de 2024 deve contar com um real relativamente fortalecido – especialmente graças a robustez das nossas contas externas. Isso porque seguimos atraindo forte fluxo de capital estrangeiro tanto pela via comercial quanto de investimentos, impulsionados – entre outras coisas – pela forte extração mineral (petróleo e minério de ferro) e produção agrícola, e pela posição relativamente positiva quando comparado a outros emergentes mais expostos a elevados riscos geopolíticos, como Rússia, China e Turquia.

E quanto mais dinheiro estrangeiro por aqui, mais valorizada nossa moeda.

Além disso, nossa moeda segue desvalorizada para padrões históricos, ao olharmos em termos reais (ou seja, descontando a inflação).

Nesse cenário, projetamos uma taxa de câmbio em R$/US$ 4,70 para o final desse ano, com média anual ao redor de R$/US$ 4,75 e de R$/US$ 4,90 para o final de 2025.

Mas vale destacar que essa projeção não significa que esse será o valor da taxa de câmbio ao longo de todo o ano. Pelo contrário, esperamos que o “sobe e desce do dólar” siga presente, especialmente diante do alto nível de incerteza nos cenários global e doméstico.

Como investir nesse cenário?

Com tantos eventos e mudanças no cenário econômico no Brasil e no mundo, entender como melhor investir o seu dinheiro e proteger o seu patrimônio é essencial.

Por isso, destacamos abaixo nossas recomendações de alocação atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor, além de sugestões de onde investir em cada classe de ativo (como ações, renda fixa e fundos de investimento).  

Vale lembrar que as recomendações sinalizadas na tabela abaixo não são as únicas possíveis, mas sim alternativas viáveis selecionadas pelos nossos especialistas para você.

Confira tudo isso em detalhes no nosso relatório “Onde Investir” – acesse aqui!

Classe Opção de investimento Opção de investimento2 Mínimo da opção mais acessível
Renda fixa pós-fixada Tesouro Selic 2029 XP TOP FI Renda Fixa Crédito Privado LP R$ 100,00
Inflação Tesouro IPCA+ 5,18% mai/2029 CRA Minerva set/30 IPCA+8,41%** R$ 50,00
Renda Fixa Prefixada Tesouro Prefixado 2026 NTN-F jan/31 10,16% R$ 100,00
Renda Fixa Global Trend High Yield Americano FIM Trend Crédito Global FIM R$ 100,00
Multimercado Selection Multimercado FIC FIM Kinea Atlas II R$ 100,00
Renda variável Brasil Carteira Rico11 Selection Ações FIC Ações R$ 100,00
Renda variável internacional Wellington Us BDR Advisory Dólar FIC Ações BDR Nível 1 M Global BDR Advisory Dólar FIC FIA BDR Nível I R$ 500,00
Renda variável internacional hedgeada Trend Bolsas Globais Trend Bolsas Emergentes R$ 100,00
Alternativos LVBI11 PVBI11 *restrito R$ 100,00

Elaborado por:

Júlia Aquino, CNPI 3607

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