Os números das fases anteriores mostram o tamanho do programa e também o tamanho do desafio. Juntas, as duas primeiras etapas do Desenrola chegaram a cerca de 25 milhões de pessoas. Foram R$ 53 bilhões renegociados na primeira fase e R$ 22 bilhões na segunda. Mesmo assim, o endividamento continua elevado: dados do Tesouro Nacional apresentados no lançamento do Desenrola 3.0 mostram que, em agosto, o país tinha cerca de 83,9 milhões de pessoas negativadas, com média de quatro dívidas e aproximadamente R$ 7 mil em débitos por pessoa. 

Esse é o cenário em que chega o Desenrola 3.0, criado por medida provisória em 25 de setembro. A adesão ao Desenrola 2.0 terminou em 31 de agosto.  

Quem quiser relembrar as regras e os resultados da fase anterior pode conferir aqui o texto completo sobre o Desenrola 2.0. 

A nova etapa, porém, não é apenas uma repetição das anteriores. Ela muda a forma de negociar e o tipo de dívida atendida, como mostramos a seguir.

O que muda nesta nova fase 

A principal novidade está no modelo. Nas fases anteriores, a renegociação era feita diretamente entre o consumidor e o credor. Agora, a União vai comprar em leilão carteiras de dívidas não pagas e repassar ao devedor todo o desconto conseguido. O desconto mínimo previsto nos leilões é de 90%, mas o abatimento final pode ser ainda maior, dependendo das ofertas apresentadas pelos credores. 

O público também é outro. O Desenrola 2.0 atendia dívidas com atraso de 91 dias a 2 anos. O 3.0 vale para dívidas de até R$ 10 mil (pelo valor original) com atraso de mais de 720 dias e menos de 1.645 dias, ou seja, de dois anos a cerca de quatro anos e meio. Com isso, uma parte das pessoas que ficou fora da fase anterior por ter dívidas mais antigas agora pode ser atendida.   

A estimativa do governo é que até R$ 150 bilhões em dívidas possam entrar no programa. Há um detalhe importante: os credores não são obrigados a participar. Por isso, nem toda dívida que se encaixa nas regras será necessariamente comprada.  

Quanto o desconto pode representar no bolso

Para mostrar o impacto do desconto mínimo, a simulação abaixo usa três valores de dívida dentro do limite do programa: 

Valor da dívida Desconto (mínimo 90%) Saldo a pagar 
R$ 2.000 R$ 1.800 R$ 200 
R$ 5.000 R$ 4.500 R$ 500 
R$ 10.000 R$ 9.000 R$ 1.000 

Simulação ilustrativa, considerando o desconto mínimo de 90% previsto na MP. O desconto final depende do leilão. As condições de parcelamento, com cobrança de juros, ainda serão definidas pelo Conselho Monetário Nacional.

A tabela mostra que, mesmo com um desconto expressivo, o saldo restante continua exigindo planejamento para não virar uma nova fonte de endividamento. Quem decidir parcelar esse valor vai pagar juros. Por isso, quitar à vista, quando o orçamento permitir, tende a ser o caminho mais barato. 

Também vale ter atenção ao calendário: o edital está previsto para novembro, as propostas dos credores para dezembro e o repasse do desconto aos devedores deve começar só em fevereiro de 2027. Até lá, organizar o orçamento já é uma forma de se preparar.  

Pequenas decisões até fevereiro 

O intervalo até o início dos repasses pode jogar a favor do orçamento. Guardar R$ 125 por mês de outubro a janeiro, por exemplo, soma R$ 500, o suficiente para quitar à vista o saldo de uma dívida de R$ 5 mil, sem precisar parcelar nem pagar juros. 

Caso queira ir além, uma alternativa é deixar esse dinheiro rendendo em aplicações conservadoras e com liquidez diária, como fundos 24h, Tesouro Selic ou CDBs de emissores sólidos disponíveis na Rico. Assim, a reserva permanece acessível e ainda pode acumular algum rendimento enquanto a renegociação não começa.  

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Outro ponto é olhar para as dívidas que ficam fora do programa. Contas mais recentes, especialmente no cartão de crédito e no cheque especial, continuam acumulando juros todos os meses. Priorizar essas dívidas evita que um problema novo cresça enquanto o antigo espera pela renegociação. 

Também é preciso atenção redobrada com golpes. Como os repasses só devem começar em 2027, mensagens que pedem pagamento antecipado, taxas ou dados pessoais em nome do Desenrola merecem desconfiança. O mais seguro é confirmar qualquer informação nos canais oficiais do governo e do próprio credor. 

O desafio continua depois do acordo 

A lição das fases anteriores continua valendo. A renegociação alivia o presente, mas sozinha não muda a estrutura do orçamento. Com um desconto desse tamanho, o principal risco é encarar o nome limpo como espaço para novas dívidas, em vez de uma oportunidade de recomeçar com mais margem. 

Mais do que quitar uma dívida antiga, o objetivo deve ser aproveitar esse momento para montar uma reserva para imprevistos e diminuir a dependência de crédito caro. O Desenrola 3.0 abre mais uma porta. Ficar fora do endividamento continua dependendo do que é feito depois dela.

Elaborado por:

Bruna Sene, CNPI-T 6928

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