O Copom cortou a Selic pela quarta vez consecutiva na reunião encerrada em 5 de agosto, em igual magnitude de 0,25 ponto percentual, levando a taxa para 14% ao ano. O movimento era esperado, mas o comunicado mostrou-se ainda mais cauteloso — e o tom da decisão importa tanto quanto o número.

Uma das razões para este resultado é a inflação. O IPCA de junho veio em 0,16% no mês, bem abaixo da mediana do mercado, e o acumulado em 12 meses desacelerou de 4,72% para 4,64% — ainda acima do teto da meta de 4,50%. A composição do dado foi mais benigna: a média dos núcleos recuou para 4,46% em 12 meses e a difusão caiu de 65% para 54%, sinal de pressão menos disseminada. O ponto de atenção segue nos serviços intensivos em trabalho, que aceleraram de 6,98% para 7,13% em 12 meses, refletindo um mercado de trabalho ainda resiliente.

Além disso, as expectativas de inflação continuam acima da meta de 3,0% para os próximos anos, e o governo anunciou recentemente cerca de R$ 200 bilhões em estímulos fiscais e parafiscais — combustível adicional para uma economia que já roda perto do seu potencial.

Nesse contexto, nosso cenário-base prevê uma pausa no ciclo após o corte de agosto, dando tempo ao Banco Central de avaliar os efeitos dos estímulos antes de seguir adiante — com projeção de Selic em 11,50% ao fim de 2027. Isso significa que o mercado de ações opera em um ambiente que ainda penaliza duration longa e ativos com fluxo de caixa sensível ao custo do crédito — mas que começa, de forma gradual, a precificar o alívio à frente.

Saiba mais sobre a decisão do Copom que levou a Selic a 14,00%.

O que esse ciclo significa para ações pagadoras de dividendos

O ambiente de juros altos tende a ser lido como adverso para a renda variável — e em parte é, especialmente para empresas com dívida pesada em CDI e modelos de negócio que dependem de crédito barato para crescer. Mas essa leitura é incompleta quando se trata de companhias pagadoras de dividendos consistentes.

Empresas com geração de caixa estável, baixo endividamento e setores menos sensíveis ao ciclo econômico — como utilities, bancos bem capitalizados e concessões — conseguem manter distribuições relevantes mesmo em ambientes restritivos. Para esse perfil de empresa, a Selic alta cria um fenômeno interessante: o preço da ação tende a ser pressionado pelo custo de oportunidade elevado da renda fixa, o que eleva o DY sem que o dividendo tenha crescido. Isso pode representar tanto um ponto de entrada quanto um sinal de alerta — a diferença está nos fundamentos.

Vale lembrar que, na renda variável, a Selic elevada ainda pede seletividade no curto prazo. O mercado costuma se antecipar aos movimentos de juros, e faz sentido manter o foco em empresas de qualidade: resilientes, com boa geração de caixa e menor sensibilidade ao ciclo de juros. Um índice em alta comprime o DY das ações que sobem junto — com isso, diante de correções, existe a possibilidade de mais empresas refletirem um DY mais elevado.

Veja aqui os impactos da alta dos juros nas ações.

A forma correta de ler o Dividend Yield

O Dividend Yield mede quanto uma empresa distribuiu em dividendos em relação ao preço atual da ação: dividendos pagos nos últimos 12 meses divididos pelo preço, multiplicados por 100. Se uma ação custa R$ 10,00 e pagou R$ 1,20 em dividendos no ano, o DY é de 12%.

A armadilha é a mesma de qualquer ativo de renda: quando o preço cai, o DY sobe — mesmo que os dividendos sejam iguais ou menores. Uma ação que custava R$ 10,00 e pagava R$ 1,00 tinha DY de 10%. Se caiu para R$ 5,00, o DY aparente vai para 20% — mas o acionista que entrou antes está com um ativo desvalorizado e, possivelmente, uma empresa em deterioração.

Por isso, DY acima da Selic é ponto de partida, não conclusão. As perguntas que validam ou invalidam o número são três: os dividendos pagos no período têm caráter recorrente ou incluem eventos extraordinários — JCP acumulado, venda de ativo, resultado não-operacional? A queda de preço que elevou o DY reflete um problema estrutural da empresa ou um ajuste de mercado que tende a se reverter com o tempo? E o nível de endividamento é compatível com a manutenção dessas distribuições em um ambiente em que o crédito ainda está caro?

Uma análise do DY médio dos últimos anos — que reflete a consistência da política de distribuição, não apenas o retrato de um exercício — costuma complementar bem a leitura do DY de 12 meses. Empresas que aparecem em ambas as métricas têm uma distribuição mais sustentável do que as que figuram apenas em uma delas.

As ações que superam os juros da Selic atual em dividendos: veja a lista

O universo de análise reúne as ações que compõem o Ibovespa, o Índice de Dividendos (Idiv) e o Índice Brasil 100 (IBrX 100) — os principais índices da B3 por liquidez e representatividade do mercado acionário brasileiro. O limiar de referência é 14% ao ano, equivalente a aproximadamente 1,10% ao mês em termos brutos.

As ações abaixo superam esse patamar considerando os dividendos acumulados nos últimos 12 meses:

TickerSetorDY 12M
SYNE3Outros64,53%
GRND3Têxtil43,19%
VULC3Têxtil32,62%
LOGG3Construção27,54%
LAVV3Construção27,26%
POMO3Veículos e peças22,42%
AUAU3Comércio21,06%
POMO4Veículos e peças20,89%
EVEN3Construção20,09%
MDNE3Construção19,13%
MBRF3Alimentos e Bebidas17,49%
BBSE3Finanças e Seguros16,98%
UNIP6Química16,92%
TGMA3Transporte e Serviços14,87%
AZZA3Têxtil14,55%
Dados Economatica. Data base: 07/08/2026. DY calculado sobre a cotação de fechamento na data base.

Vale um alerta sobre as primeiras colocadas: yields muito acima da média costumam ter origem em eventos que não se repetem todo ano — venda de ativos, reduções de capital ou distribuições extraordinárias. Por isso, é útil cruzar essa lista com o comportamento histórico da distribuição.

A seguir, as ações que superam 14% ao ano considerando a média do DY dos últimos três exercícios (2023, 2024 e 2025), critério que privilegia a consistência da política de dividendos em vez do retrato de um único ano:

TickerSetorDY Médio 3 Anos
GRND3Têxtil21,68%
VULC3Têxtil17,38%
PETR4Petróleo e Gás17,29%
PETR3Petróleo e Gás16,22%
LEVE3Veículos e peças15,64%
BRAP4Outros14,02%
Dados Economatica. Data base: 07/08/2026. Média simples do DY dos exercícios de 2023, 2024 e 2025.

O contraste entre as duas listas é informativo: apenas GRND3 e VULC3 aparecem em ambas. As demais posições do topo da primeira tabela não se sustentam quando se olha o histórico de três anos — sinal de que o yield elevado tem origem pontual. Do outro lado, Petrobras e Bradespar mostram consistência histórica, mas distribuíram menos nos últimos 12 meses do que sua própria média.

Como os números foram calculados

Os dados são da Economatica, com data base de 07/08/2026, e consideram as ações que integram o Ibovespa, o Idiv ou o IBrX 100. O Dividend Yield de 12 meses divide os proventos distribuídos no período — dividendos e juros sobre capital próprio (JCP) — pela cotação de fechamento na data base. Ou seja, reflete o rendimento de quem compra a ação hoje, e não o de quem comprou há um ano.

O DY médio de três anos é a média simples dos yields apurados ao fim de cada exercício de 2023, 2024 e 2025, considerando apenas empresas que distribuíram proventos em pelo menos três dos anos analisados.

O que avaliar antes de investir

Mapear quem paga mais é o primeiro passo. O segundo é entender se essa distribuição é estrutural ou circunstancial. Os critérios que fazem diferença nessa avaliação são a qualidade e recorrência da geração de caixa, o histórico de pagamento em diferentes momentos do ciclo econômico, o nível de endividamento da empresa e a sensibilidade do setor ao ritmo de queda da Selic. Empresas que pagaram dividendos extraordinários para inflar o DY em um único ano costumam decepcionar o investidor que entrou esperando repetição.

Este conteúdo é de caráter educacional e não representa recomendação de compra ou venda de qualquer ativo.

Para quem quer ir além da tabela, nossa Carteira Recomendada de Dividendos é atualizada todo mês com base em análise fundamentalista — não apenas no DY corrente:

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Elaborado por:

Maria Giulia Soares, CNPI 10023

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