Em junho, o IPCA subiu 0,16%, resultado abaixo da nossa projeção (+0,32%) e da mediana do mercado (+0,31%). No acumulado em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,72% para 4,64%, revertendo parte da piora observada em maio. A leitura mostra desaceleração relevante na margem, saindo de 0,58% em maio para 0,16% em junho, com contribuição tanto dos preços administrados quanto dos preços livres.
O ponto mais positivo do dado está na composição, ou seja, na forma como a inflação se distribui entre os diferentes grupos e medidas. Mais do que o número cheio, o que importa para avaliar a tendência é entender de onde vem a pressão: se está concentrada em itens voláteis (como alimentos in natura e combustíveis) ou se aparece de forma espalhada e persistente em serviços e núcleos.
Neste mês, além do resultado do índice geral ter sido abaixo, as medidas subjacentes de serviços e a média dos núcleos vieram melhores do que o esperado, e a difusão recuou de forma significativa, sinais que indicam uma pressão inflacionária menos disseminada. O contraste do mês fica por conta dos serviços intensivos em trabalho e dos bens industriais subjacentes, que seguem pressionados na tendência e mantêm o quadro de cautela em relação ao processo de desinflação. Detalhamos mais o resultado a seguir.
Por que a inflação subiu em junho?
A desaceleração do IPCA em junho teve vetores baixistas espalhados por vários grupos, o que reforçou uma leitura relativamente mais benigna do dado. No bloco de preços administrados, contribuíram para o alívio o gás de botijão, o gás encanado, a energia elétrica residencial, os produtos farmacêuticos e o plano de saúde. Apesar do repasse do reajuste de 15% da Light-RJ nas tarifas de energia, o grupo de administrados avançou apenas 0,29% no mês, em linha com o projetado.
Do lado dos preços livres, a maior surpresa veio da alimentação no domicílio, que recuou 0,39% no mês. O destaque baixista ficou por conta de tubérculos, raízes e legumes, frutas e carnes, itens que costumam responder mais rapidamente a mudanças de oferta e a condições climáticas favoráveis no curto prazo. Alimentação fora do domicílio também surpreendeu para baixo, o que ajudou a puxar a leitura de serviços.
Nos bens industriais, o resultado veio mais comportado do que o esperado, com alta de 0,11% no mês. Higiene pessoal moderou para 0,34%, contrariando as coletas de preços que sugeriam uma leitura próxima de 2%, e o etanol recuou cerca de 3%, ajudando a segurar a contribuição do grupo. Ainda assim, os industriais subjacentes ainda seguem como ponto de atenção e desafiador para o processo de desinflação.
Meta de inflação: o que observar
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária — a política responsável pelo controle da quantidade de moeda na economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que ela se mantenha no ritmo de 3,0%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima e para baixo. Essa banda serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma crise geopolítica que pressione os preços de commodities.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
Com o IPCA acumulado em 4,64%, a inflação volta a superar o limite da banda, reforçando a necessidade de atenção aos números — especialmente porque o Banco Central iniciou o ciclo de corte da Selic em 2026, reduzindo a taxa para 14,25% ao ano. A decisão veio após meses de manutenção em 15%, e reflete sinais de moderação da atividade econômica e alguma melhora nas expectativas de inflação observados até o momento da reunião. No entanto, as pressões inflacionárias ao redor do mundo mantêm o debate sobre o ritmo do movimento do ciclo de juros e a possibilidade de novos cortes.
Núcleos e serviços
Os serviços são o componente mais sensível da inflação para a política monetária, porque tendem a responder de forma mais persistente ao mercado de trabalho aquecido e à inércia inflacionária. Em junho, o agregado de serviços subiu 0,34%, abaixo da nossa projeção (0,43%), enquanto os serviços subjacentes, medida que exclui os itens mais voláteis e ajuda a enxergar a tendência ligada a emprego e renda, avançaram 0,22%, também abaixo do projetado (0,34%).
Esse alívio, mais expressivo do que o observado em maio, convive com um pano de fundo que ainda pede cautela. Os serviços ex-passagens aéreas cederam apenas na margem em 12 meses (de +5,44% para +5,38%), enquanto os serviços intensivos em trabalho, como restaurantes, cabeleireiros e consertos, mais sensíveis a salários, aceleraram na mesma métrica, saindo de +6,98% para +7,13%. Em nossa avaliação, a combinação de mercado de trabalho resiliente e estímulos fiscais em curso continua sustentando uma inflação de serviços compatível com algo próximo de 6% em 2026, patamar ainda elevado e parecido com o observado no ano passado.
Para entender a tendência, é útil olhar os núcleos. Os núcleos são medidas que retiram do índice os itens mais voláteis, como alimentos in natura e alguns preços administrados, justamente para revelar a parte mais “estrutural” e persistente da inflação, aquela que tende a continuar pressionando os preços ao longo do tempo. Em junho, a média dos núcleos avançou 0,21% no mês, abaixo da nossa projeção (0,33%), e as medidas de tendência melhoraram na margem.
Aqui entra um conceito importante, a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (3M SAAR). Em termos simples, ela pega a variação média das três leituras mais recentes, retira os efeitos sazonais típicos do período e responde à pergunta: “se esse ritmo recente se mantivesse por um ano inteiro, qual seria a taxa de inflação?”. Por isso, é uma forma mais limpa de captar o “ritmo do momento”. No caso de junho, a 3M SAAR da média dos núcleos recuou de 5,29% para 4,91%, uma desaceleração relevante, ainda que a leitura permaneça acima da meta. Em 12 meses, os núcleos passaram de 4,54% para 4,46%. A mesma dinâmica apareceu nos serviços subjacentes: a 3M SAAR cedeu de 5,57% para 4,80%, movimento que ajuda a explicar por que a composição do mês foi lida como mais benigna.
A abertura individual, no entanto, ainda mostra pontos de resistência. Os serviços intensivos em trabalho aceleraram na tendência, com a 3M SAAR passando de 7,19% para 7,41%, reforçando que a parte mais inercial da cesta segue rodando em patamar desconfortável. Por outro lado, a difusão, que mede o percentual de itens com alta no mês, recuou de forma expressiva, de 65% para 54%, sinalizando que a pressão inflacionária ficou menos espalhada entre os diversos itens da cesta. Em conjunto, esses indicadores sugerem uma composição mais favorável no mês, mas ainda insuficiente para descartar a persistência da inflação subjacente.
Outros grupos relevantes
Na alimentação no domicílio, os preços recuaram 0,39% em junho, resultado bem abaixo do que projetávamos. A surpresa baixista ficou concentrada em tubérculos, raízes e legumes, frutas e carnes. Para o terceiro trimestre, esperamos que essa dinâmica de deflação sequencial se estenda, com volta ao território positivo apenas no último trimestre do ano, movimento em que já começam a pesar os efeitos esperados do El Niño sobre a produção agrícola. Ou seja, o alívio do mês é bem-vindo, mas ainda não configura tendência de melhora consistente à frente.
Os bens industriais avançaram 0,11% no mês, também abaixo do esperado. O ponto de maior atenção segue nos bens industriais subjacentes, aqueles que excluem os itens mais voláteis para captar a tendência mais persistente. Eles subiram 0,22% em junho, abaixo da projeção (0,42%), mas com dinâmica de tendência que continua deteriorando: a 3M SAAR acelerou de 5,61% para 6,01%, e o acumulado em 12 meses passou de 3,95% para 4,14%. O quadro segue coerente com o repasse gradual da alta recente do Brent e das pressões globais sobre manufaturados, e mantém esse grupo entre os principais focos de preocupação da cesta.
Entre os preços administrados, itens regulados ou contratados como energia elétrica, combustíveis e transporte público, cujos reajustes seguem regras e contratos e não a livre dinâmica de mercado, o resultado veio em linha com o projetado, com alta de 0,29%. O IBGE capturou o reajuste de 15% nas tarifas da Light-RJ, e a gasolina recuou 0,1% no mês, refletindo parte da forte deflação do etanol.
O que esperar da inflação à frente
Em síntese, apesar do IPCA ter vindo como surpresa baixista, com certo alívio marginal, mantemos a cautela para o ano. Para julho, esperamos alguma reaceleração do IPCA na margem, com pressão vinda principalmente de Habitação (condomínio e energia elétrica residencial) e Transportes (passagens aéreas).
Mantemos nossa projeção de IPCA em 5,2% para 2026 e 4,2% para 2027. O quadro segue cercado por riscos, com destaque para os desdobramentos do conflito entre EUA e Irã sobre a cadeia de bens e serviços e para os efeitos do El Niño sobre alimentação no domicílio, que tendem a aparecer com mais clareza no fim do ano.
Como proteger seu patrimônio?
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos que protejam seu patrimônio dessa dinâmica espiral.
Abaixo, destacamos alternativas para esse objetivo.
- Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+ / NTN-B): pagam juros reais acima da inflação, garantindo preservação do poder de compra no longo prazo. São indicados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria e formação de patrimônio.
Como ficam os investimentos atrelados ao IPCA?
Com resultado de junho, temos um resultado do IPCA em 4,64% em 12 meses, e a inflação segue acima da meta do BC (3,0%). Com a Selic em 14,25% e o cenário exigindo cautela, proteger seu patrimônio continua essencial.
Se você tivesse investido R$ 10 mil há 12 meses em um título atrelado à inflação pagando IPCA + 6% a.a., seu resultado seria:
- Inflação acumulada (IPCA 12m): 4,64% (aproximadamente 0,4% ao mês).
- Juros reais de 6% ao ano, equivalente a 0,5% ao mês.
- Rentabilidade total ao mês: 0,9%
Com um investimento de R$ 10.000,00, o valor total acumulado após 12 meses seria de R$ 11.135,10, antes da dedução do Imposto de Renda. Considerando o resgate do investimento, o valor líquido seria de R$ 10.908,08 — o que representa uma rentabilidade líquida de R$ 908,08 em um ano, aplicada em um título indexado ao IPCA.
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos atrelados ao IPCA, que ajudam a proteger sua rentabilidade contra a perda do valor real do dinheiro — principalmente em momentos como o atual, em que a inflação segue pressionada.
- Debêntures incentivadas: isentas de IR para pessoa física, remuneram com juros reais e podem oferecer retornos superiores aos títulos públicos, com o benefício fiscal aumentando o rendimento líquido.
- Crédito privado de emissores sólidos: CDBs, LCIs, LCAs e outros papéis de instituições com boa avaliação de risco, que oferecem prêmios adicionais sobre a renda fixa tradicional.
- Fundos imobiliários indexados à inflação: mesmo com maior volatilidade no curto prazo, podem gerar renda mensal ajustada pelo IPCA e diversificar o portfólio. São especialmente úteis para quem busca fluxo de caixa recorrente e proteção contra perda do poder de compra.
Ao diversificar entre essas classes, o investidor reduz riscos, mantém resiliência diante de diferentes cenários econômicos e preserva o valor real do patrimônio, afinal nem só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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