Em julho, o IPCA subiu 0,07%, resultado acima da nossa projeção (-0,02%) e da mediana do mercado (+0,01%). No acumulado em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,64% para 4,44%. O dado interrompeu uma sequência de surpresas baixistas, mas o desvio em relação ao projetado ficou concentrado em itens voláteis, com destaque para higiene pessoal e alimentação no domicílio.
O ponto mais positivo do dado está na composição, ou seja, na forma como a inflação se distribui entre os diferentes grupos e medidas. Mais do que o número cheio, o que importa para avaliar a tendência é entender de onde vem a pressão: se está concentrada em itens voláteis (como alimentos in natura e combustíveis) ou se aparece de forma espalhada e persistente em serviços e núcleos.
Neste mês, ainda que o índice geral tenha vindo acima do projetado, as medidas de núcleo desaceleraram na comparação sequencial e a difusão recuou novamente, sinais que indicam uma pressão inflacionária menos disseminada. O contraste do mês fica por conta dos serviços intensivos em trabalho, que seguem acima de 7% tanto na média móvel trimestral quanto no acumulado em 12 meses. Detalhamos mais o resultado a seguir.
Por que a inflação surpreendeu para cima em julho?
A surpresa altista de julho ficou concentrada em poucos itens, e em geral voláteis. Os principais desvios em relação à nossa projeção vieram de higiene pessoal (+4 pontos-base) e de alimentação no domicílio (+3 pontos-base). Em serviços, os desvios para cima se concentraram em serviços de transporte e em recreação, também itens de comportamento volátil.
Mesmo assim, o índice seguiu com contribuições baixistas relevantes. A alimentação no domicílio recuou 1,14% no mês, queda menor do que a que projetávamos (-1,31%), com surpresas para cima em frutas, carnes e bebidas, parcialmente compensadas por tubérculos, raízes e legumes e por panificados. Entre os administrados, a gasolina caiu 1,37%, recuo mais intenso do que o esperado (-1,06%), reforçando a contribuição desinflacionária de transportes.
Nos bens industriais, os preços caíram 0,10% no mês, acima da nossa expectativa (-0,19%). Os industriais subjacentes ficaram estáveis (0,00%), também acima do projetado (-0,17%), influenciados justamente por higiene pessoal, a maior surpresa altista do relatório. Dada a volatilidade desse item, lemos o desvio de julho mais como oscilação pontual do que como mudança na tendência de fundo.
Meta de inflação: o que observar
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária — a política responsável pelo controle da quantidade de moeda na economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que ela se mantenha no ritmo de 3,0%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima e para baixo. Essa banda serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma crise geopolítica que pressione os preços de commodities.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
Com o IPCA acumulado em 4,44%, a inflação voltou a ficar abaixo do teto da banda de tolerância (4,5%), embora siga distante do centro da meta (3,0%). O Banco Central iniciou o ciclo de corte da Selic em 2026, após meses de manutenção em 15%, e a taxa hoje está em 14,00% ao ano. Em nosso cenário, a Selic deve permanecer nesse patamar até o fim do ano, ainda que os dados recentes de atividade e de inflação criem um ambiente favorável para que o Copom retome o ciclo de flexibilização.
Núcleos e serviços
Os serviços são o componente mais sensível da inflação para a política monetária, porque tendem a responder de forma mais persistente ao mercado de trabalho aquecido e à inércia inflacionária. Em julho, o agregado de serviços subiu 0,54%, acima da nossa projeção (0,42%), enquanto os serviços subjacentes, medida que exclui os itens mais voláteis e ajuda a enxergar a tendência ligada a emprego e renda, avançaram 0,42%, também acima do projetado (0,32%).
Apesar do desvio no dado do mês, as medidas de tendência seguiram melhorando. Em 12 meses, os serviços subjacentes cederam de 5,00% para 4,92%. O ponto de resistência continua nos serviços intensivos em trabalho, como restaurantes, cabeleireiros e consertos, mais sensíveis a salários, que subiram 0,47% no mês, levemente abaixo da nossa projeção (0,52%), mas cujo acumulado em 12 meses avançou de 7,13% para 7,29%. A leitura sugere que a demanda doméstica e o mercado de trabalho ainda apertado continuam pressionando os componentes mais inerciais da cesta.
Para entender a tendência, é útil olhar os núcleos. Os núcleos são medidas que retiram do índice os itens mais voláteis, como alimentos in natura e alguns preços administrados, justamente para revelar a parte mais “estrutural” e persistente da inflação, aquela que tende a continuar pressionando os preços ao longo do tempo. Em julho, a média dos núcleos avançou 0,26% no mês, acima da nossa projeção (0,13%), mas as medidas de tendência seguiram desacelerando.
Aqui entra um conceito importante, a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (3M SAAR). Em termos simples, ela pega a variação média das três leituras mais recentes, retira os efeitos sazonais típicos do período e responde à pergunta: “se esse ritmo recente se mantivesse por um ano inteiro, qual seria a taxa de inflação?”. Por isso, é uma forma mais limpa de captar o “ritmo do momento”. No caso de julho, a 3M SAAR da média dos núcleos recuou de 4,90% para 4,56%, e o acumulado em 12 meses cedeu de 4,46% para 4,44%. A mesma dinâmica apareceu nos serviços subjacentes: a 3M SAAR passou de 4,73% para 4,52%.
A abertura individual reforça essa leitura. O EX3, um dos núcleos calculados pelo Banco Central que exclui alimentação no domicílio e combustíveis e foca em um conjunto selecionado de itens de serviços e bens industriais, ou seja, busca isolar a inflação mais ligada à demanda interna e menos contaminada por choques de oferta, recuou de 4,64% para 4,57% em 12 meses, com a 3M SAAR caindo de 5,26% para 4,75%. A difusão, que mede o percentual de itens com alta no mês, também cedeu, de 54% para 50%. Nos serviços intensivos em trabalho, a 3M SAAR moderou de 7,52% para 7,08%, mas permaneceu acima de 7%, mantendo esse bloco como o principal ponto de atenção da cesta.
Outros grupos relevantes
Na alimentação no domicílio, os preços recuaram 1,14% em julho, queda menos intensa do que projetávamos (-1,31%). As surpresas para cima ficaram concentradas em frutas, carnes e bebidas, parcialmente compensadas por tubérculos, raízes e legumes e por panificados. Ainda assim, o grupo seguiu como uma das principais contribuições baixistas do índice no mês.
Os bens industriais recuaram 0,10% no mês, acima da nossa expectativa (-0,19%). A 3M SAAR do grupo caiu de 3,58% para 2,50%, e o acumulado em 12 meses cedeu de 2,74% para 2,68%. Nos bens industriais subjacentes, aqueles que excluem os itens mais voláteis para captar a tendência mais persistente, o resultado ficou estável no mês (0,00%), mas a tendência melhorou: a 3M SAAR recuou de 5,83% para 4,95% e o acumulado em 12 meses passou de 4,14% para 4,08%, o primeiro alívio após vários meses de deterioração.
Entre os preços administrados, itens regulados ou contratados como energia elétrica, combustíveis e transporte público, cujos reajustes seguem regras e contratos e não a livre dinâmica de mercado, a alta foi de 0,27%, essencialmente em linha com a nossa projeção (0,28%). Dentro do grupo, a energia elétrica subiu 3,09%, acima do esperado (2,66%), enquanto a gasolina recuou 1,37%, queda mais intensa do que a projetada (-1,06%).
O que esperar da inflação à frente?
Em síntese, o IPCA de julho veio acima do esperado e interrompeu a sequência recente de surpresas baixistas. Ainda assim, a composição seguiu construtiva: o desvio altista se concentrou em itens voláteis, alimentação no domicílio e higiene pessoal, enquanto as medidas de núcleo desaceleraram na comparação sequencial e a difusão recuou novamente. A principal fonte de preocupação continua sendo os serviços intensivos em trabalho.
Mantemos nossa projeção de IPCA em 5,1% para 2026 e 4,2% para 2027. No campo da política monetária, esperamos que a Selic permaneça em 14,00% ao ano até o fim do ano, ainda que os dados recentes de atividade e de inflação criem um ambiente favorável para que o Copom retome o ciclo de flexibilização.
Como proteger seu patrimônio?
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos que protejam seu patrimônio dessa dinâmica espiral.
Abaixo, destacamos alternativas para esse objetivo.
- Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+ / NTN-B): pagam juros reais acima da inflação, garantindo preservação do poder de compra no longo prazo. São indicados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria e formação de patrimônio.
Como ficam os investimentos atrelados ao IPCA?
Com resultado de julho, temos um resultado do IPCA em 4,44% em 12 meses, e a inflação segue acima da meta do BC (3,0%). Com a Selic em 14,00% e o cenário exigindo cautela, proteger seu patrimônio continua essencial.
Se você tivesse investido R$ 10 mil há 12 meses em um título atrelado à inflação pagando IPCA + 6% a.a., seu resultado seria:
- Inflação acumulada (IPCA 12m): 4,44% (aproximadamente 0,36% ao mês).
- Juros reais de 6% ao ano, equivalente a 0,5% ao mês.
- Rentabilidade total ao mês: 0,86%
Com um investimento de R$ 10.000,00, o valor total acumulado após 12 meses seria de R$ 11.082,24, antes da dedução do Imposto de Renda. Considerando o resgate do investimento, o valor líquido seria de R$ 10.865,79 — o que representa uma rentabilidade líquida de R$ 865,79 em um ano, aplicada em um título indexado ao IPCA.
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos atrelados ao IPCA, que ajudam a proteger sua rentabilidade contra a perda do valor real do dinheiro — principalmente em momentos como o atual, em que a inflação segue pressionada.
- Debêntures incentivadas: isentas de IR para pessoa física, remuneram com juros reais e podem oferecer retornos superiores aos títulos públicos, com o benefício fiscal aumentando o rendimento líquido.
- Crédito privado de emissores sólidos: CDBs, LCIs, LCAs e outros papéis de instituições com boa avaliação de risco, que oferecem prêmios adicionais sobre a renda fixa tradicional.
- Fundos imobiliários indexados à inflação: mesmo com maior volatilidade no curto prazo, podem gerar renda mensal ajustada pelo IPCA e diversificar o portfólio. São especialmente úteis para quem busca fluxo de caixa recorrente e proteção contra perda do poder de compra.
Segundo o nosso especialista em investimentos Antônio Sanches, “é possível proteger o seu patrimônio investindo de forma que seu dinheiro cresça de fato acima da inflação”.
Veja abaixo a análise completa: Inflação alta? Proteja os seus investimentos | Escola de Investidores
Ao diversificar entre essas classes, o investidor reduz riscos, mantém resiliência diante de diferentes cenários econômicos e preserva o valor real do patrimônio, afinal nem só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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