Em agosto, o IPCA recuou 0,32%, resultado ligeiramente abaixo da nossa projeção (-0,29%) e da mediana do mercado (-0,28%). No acumulado em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,44% para 4,22%. A deflação foi determinada principalmente pela queda da energia elétrica, associada ao crédito extraordinário do Bônus de Itaipu, um efeito temporário que reduziu o índice cheio no período.

A leitura do resultado exige separar esse efeito pontual da tendência mais persistente da inflação. Os preços administrados recuaram 1,25%, enquanto os preços livres avançaram 0,02%. Ao mesmo tempo, a média dos núcleos desacelerou de 0,26% para 0,23%, e sua média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada caiu de 4,45% para 3,97%.

O principal contraponto veio da difusão, que subiu de 50% para 54%, e dos serviços subjacentes, cuja média móvel trimestral anualizada passou de 4,58% para 4,85%. Assim, embora o índice cheio e os núcleos tenham melhorado, os componentes mais ligados à inflação doméstica ainda exigem acompanhamento.

Por que a inflação caiu em agosto?

A principal contribuição para a deflação veio de Habitação, que recuou 1,87% no mês. Dentro do grupo, a energia elétrica caiu 7,63%, refletindo o crédito do Bônus de Itaipu nas contas de luz. Como o benefício representa um crédito extraordinário, essa redução não deve ser interpretada como uma mudança permanente no nível das tarifas.

Transportes também ajudou a reduzir o índice, com queda de 0,86%, puxada pela gasolina e por componentes de serviços. A alimentação no domicílio recuou 0,61%, embora a deflação tenha perdido força em relação a julho.

No sentido contrário, Despesas pessoais subiram 1,30%, com destaque para o aumento de cigarros após a elevação do IPI. Esse movimento também influenciou os bens industriais, que avançaram 0,43%. Já os industriais subjacentes subiram 0,10%, indicando que a pressão ficou concentrada em itens específicos, sem aceleração equivalente do componente mais persistente.

Meta de inflação: o que observar

O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária — a política responsável pelo controle da quantidade de moeda na economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.

Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que ela se mantenha no ritmo de 3,0%.

O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima e para baixo. Essa banda serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma crise geopolítica que pressione os preços de commodities.

Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.

Com o IPCA acumulado em 4,22%, a inflação permanece abaixo do teto da banda de tolerância (4,5%), embora siga distante do centro da meta (3,0%). O Banco Central iniciou o ciclo de corte da Selic em 2026, e a taxa está em 14,00% ao ano. Em nosso cenário, a Selic deve encerrar o ano em 13,25%, com cortes de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões, diante da desaceleração da atividade e da melhora recente da inflação, que favorecem a continuidade gradual da flexibilização monetária.

Núcleos e serviços

Os serviços são o componente mais sensível da inflação para a política monetária, porque tendem a responder de forma mais persistente ao mercado de trabalho aquecido e à inércia inflacionária. Em agosto, o agregado de serviços subiu 0,03%, enquanto os serviços subjacentes, medida que exclui os itens mais voláteis e ajuda a enxergar a tendência ligada a emprego e renda, avançaram 0,40%.

A diferença entre as duas medidas é importante. O agregado mensal foi contido por componentes voláteis, mas a média móvel trimestral anualizada dos serviços subjacentes passou de 4,58% para 4,85%, mostrando que o alívio no mês não foi uniforme entre os componentes mais relacionados à demanda doméstica.

Para entender a tendência, é útil olhar os núcleos. Os núcleos são medidas que retiram do índice os itens mais voláteis, como alimentos in natura e alguns preços administrados, justamente para revelar a parte mais “estrutural” e persistente da inflação, aquela que tende a continuar pressionando os preços ao longo do tempo. Em agosto, a média dos núcleos avançou 0,23%, abaixo dos 0,26% observados em julho.

Aqui entra um conceito importante, a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (3M SAAR). Em termos simples, ela pega a variação média das três leituras mais recentes, retira os efeitos sazonais típicos do período e responde à pergunta: “se esse ritmo recente se mantivesse por um ano inteiro, qual seria a taxa de inflação?”. Por isso, é uma forma mais limpa de captar o “ritmo do momento”.

Em agosto, a 3M SAAR da média dos núcleos recuou de 4,45% para 3,97%.

A difusão, que mede o percentual de itens com alta no mês, subiu de 50% para 54%. Portanto, a intensidade dos núcleos mostrou melhora, mas a alta de preços atingiu uma parcela maior da cesta.

Outros grupos relevantes

Na alimentação no domicílio, os preços recuaram 0,61% em agosto, após queda de 1,14% em julho. O grupo continuou contribuindo para conter o índice, embora com perda de força na comparação mensal.

Os bens industriais avançaram 0,43%, influenciados principalmente por cigarros. Nos bens industriais subjacentes, que excluem itens mais voláteis para captar a tendência persistente, a alta foi menor, de 0,10%.

Entre os preços administrados, houve queda de 1,25%. A energia elétrica recuou 7,63%, com o efeito temporário do Bônus de Itaipu, enquanto a gasolina caiu 0,59%.

O que esperar da inflação à frente?

Em síntese, o IPCA de agosto registrou deflação concentrada sobretudo na energia elétrica. Os núcleos melhoraram, mas a alta da difusão e a aceleração da 3M SAAR dos serviços subjacentes recomendam cautela na leitura do índice cheio. Para setembro, a reversão do Bônus de Itaipu deve pressionar o resultado, ao lado da alta de alimentos in natura e passagens aéreas, enquanto o efeito do reajuste de cigarros tende a perder força.

Mantemos a nossa projeção do IPCA de 5,0% para 2026 e 4,2% para 2027. No campo da política monetária, esperamos que a Selic recue do patamar atual de 14,00% para 13,25% ao ano até o fim de 2026, com cortes graduais de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões, sustentados pela desaceleração da atividade e pela evolução mais favorável da inflação.

Como proteger seu patrimônio?

A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos que protejam seu patrimônio dessa dinâmica espiral.

Abaixo, destacamos alternativas para esse objetivo.

  • Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+ / NTN-B): pagam juros reais acima da inflação, garantindo preservação do poder de compra no longo prazo. São indicados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria e formação de patrimônio.
Como ficam os investimentos atrelados ao IPCA?

Com o resultado de agosto, temos um IPCA de 4,22% em 12 meses, e a inflação segue acima da meta do BC (3,0%). Com a Selic em 14,00% e o cenário exigindo cautela, proteger seu patrimônio continua essencial.

Se você tivesse investido R$ 10 mil há 12 meses em um título atrelado à inflação pagando IPCA + 6% a.a., seu resultado seria:

  • Inflação acumulada (IPCA 12m): 4,22% (aproximadamente 0,35% ao mês).
  • Juros reais de 6% ao ano, equivalente a 0,5% ao mês.
  • Rentabilidade total ao mês: 0,85%

Com um investimento de R$ 10.000,00, o valor total acumulado após 12 meses seria de R$ 11.069,06, antes da dedução do Imposto de Renda. Considerando o resgate do investimento, o valor líquido seria de R$ 10.855,25 — o que representa uma rentabilidade líquida de R$ 855,25 em um ano, aplicada em um título indexado ao IPCA.

A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos atrelados ao IPCA, que ajudam a proteger sua rentabilidade contra a perda do valor real do dinheiro — principalmente em momentos como o atual, em que a inflação segue pressionada.

  • Debêntures incentivadas: isentas de IR para pessoa física, remuneram com juros reais e podem oferecer retornos superiores aos títulos públicos, com o benefício fiscal aumentando o rendimento líquido.
  • Crédito privado de emissores sólidos: CDBs, LCIs, LCAs e outros papéis de instituições com boa avaliação de risco, que oferecem prêmios adicionais sobre a renda fixa tradicional.
  • Fundos imobiliários indexados à inflação: mesmo com maior volatilidade no curto prazo, podem gerar renda mensal ajustada pelo IPCA e diversificar o portfólio. São especialmente úteis para quem busca fluxo de caixa recorrente e proteção contra perda do poder de compra.

Segundo o nosso especialista em investimentos Antônio Sanches, “é possível proteger o seu patrimônio investindo de forma que seu dinheiro cresça de fato acima da inflação”.

Veja abaixo a análise completa: Inflação alta? Proteja os seus investimentos | Escola de Investidores

Ao diversificar entre essas classes, o investidor reduz riscos, mantém resiliência diante de diferentes cenários econômicos e preserva o valor real do patrimônio, afinal nem só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”.

Elaborado por:

Maria Giulia Soares, CNPI 10023

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