Em setembro, o IPCA subiu 0,82%, acima da nossa projeção (0,75%) e da mediana do mercado (0,76%). No acumulado em 12 meses, a inflação acelerou de 4,22% para 4,58%, voltando a superar o teto da banda de tolerância da meta, de 4,5%. No ano, o índice acumula alta de 3,95%.
A aceleração do índice cheio foi puxada principalmente pelos preços administrados, que avançaram 1,59% no mês. A reversão do Bônus de Itaipu elevou as tarifas de energia elétrica residencial, enquanto a gasolina voltou a subir após a queda registrada em agosto. Os preços livres também aceleraram, com alta de 0,55%, impulsionados por alimentação no domicílio e serviços.
O contraste do mês está na piora das medidas de tendência. A média dos núcleos avançou de 0,23% para 0,36%, enquanto sua média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada passou de 4,09% para 4,78%. Os serviços subjacentes também aceleraram nessa métrica, de 4,91% para 6,01%. Os resultados interromperam a melhora observada nos meses anteriores e reforçaram a persistência das pressões inflacionárias.
Por que a inflação acelerou em setembro?
A principal contribuição veio de Habitação, que subiu 2,31% no mês. A energia elétrica residencial avançou 7,98%, com o fim do crédito do Bônus de Itaipu nas contas de luz. O movimento representa a reversão do efeito temporário que havia reduzido o IPCA de agosto.
Transportes também pressionou o índice, com alta de 0,89%. A gasolina subiu 1,21%, após recuar 0,59% em agosto, e ficou entre as principais surpresas altistas do resultado. Passagens aéreas, seguro de veículos e transporte por aplicativo também contribuíram para a aceleração do grupo e dos serviços no mês.
A alimentação no domicílio avançou 0,96%, depois de três meses consecutivos de queda. O movimento foi impulsionado principalmente pelos alimentos in natura, enquanto carnes, aves e ovos e laticínios ajudaram a limitar a alta.
Entre os demais grupos, Vestuário subiu 0,71%, enquanto Comunicação avançou 0,64%. Nos bens industriais, a alta perdeu força para 0,17%, com a dissipação do efeito do reajuste de cigarros. Os industriais subjacentes avançaram 0,13%, mantendo dinâmica mais moderada que a observada em serviços.
Meta de inflação: o que observar
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária — a política responsável pelo controle da quantidade de moeda na economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que ela se mantenha no ritmo de 3,0%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima e para baixo. Essa banda serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma crise geopolítica que pressione os preços de commodities.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
Com o IPCA acumulado em 4,58%, a inflação voltou a superar o teto da banda de tolerância, de 4,5%, e permanece distante do centro da meta, de 3,0%. O Banco Central iniciou o ciclo de corte da Selic em 2026, e a taxa está em 13,75% ao ano. Em nosso cenário, a Selic deve encerrar o ano em 13,25%, com cortes de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões, e chegar a 11,50% em 2027.
Núcleos e serviços
Os serviços são o componente mais sensível da inflação para a política monetária, porque tendem a responder de forma mais persistente ao mercado de trabalho aquecido e à inércia inflacionária. Em setembro, o agregado de serviços subiu 0,61%, enquanto os serviços subjacentes, medida que exclui os itens mais voláteis e ajuda a identificar a tendência ligada a emprego e renda, avançaram 0,36%.
A diferença entre as duas medidas é importante. O agregado mensal foi pressionado por passagens aéreas, seguro de veículos, transporte por aplicativo e recreação. Nos serviços subjacentes, a média móvel trimestral dessazonalizada e anualizada passou de 4,91% para 6,01%, enquanto o acumulado em 12 meses avançou de 4,98% para 5,32%. O movimento mostra que a aceleração não ficou restrita aos componentes mais voláteis dos serviços.
Os serviços intensivos em trabalho, mais sensíveis às condições do mercado de trabalho e aos salários, subiram 0,58% no mês. A média móvel trimestral anualizada permaneceu próxima de 7,4%, enquanto o acumulado em 12 meses avançou de 7,18% para 7,43%. Esse componente continua sendo um dos principais pontos de atenção para a política monetária.
Para entender a tendência, é útil olhar os núcleos. Os núcleos são medidas que retiram do índice os itens mais voláteis, como alimentos in natura e alguns preços administrados, justamente para revelar a parte mais “estrutural” e persistente da inflação, aquela que tende a continuar pressionando os preços ao longo do tempo. Em setembro, a média dos núcleos avançou 0,36%, após alta de 0,23% em agosto. Em 12 meses, a medida passou de 4,37% para 4,55%.
Aqui entra um conceito importante, a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (3M SAAR). Em termos simples, ela pega a variação média das três leituras mais recentes, retira os efeitos sazonais típicos do período e responde à pergunta: “se esse ritmo recente se mantivesse por um ano inteiro, qual seria a taxa de inflação?”. Por isso, é uma forma mais limpa de captar o “ritmo do momento”.
Em setembro, a 3M SAAR da média dos núcleos acelerou de 4,09% para 4,78%, voltando a superar o teto da banda de tolerância da meta. O EX3 acompanhou esse movimento: avançou de 4,43% para 4,64% em 12 meses, enquanto sua 3M SAAR passou de 4,11% para 4,82%.
A difusão, que mede o percentual de itens com alta no mês, subiu de 54% para 55%. A combinação entre maior difusão, aceleração dos núcleos e avanço dos serviços subjacentes indica que a piora de setembro não ficou concentrada apenas na reversão do Bônus de Itaipu e em outros preços administrados.
Outros grupos relevantes
Na alimentação no domicílio, os preços subiram 0,96% em setembro, após três meses consecutivos de queda. O acumulado em 12 meses acelerou de 2,77% para 4,19%, enquanto a média móvel trimestral anualizada cedeu ligeiramente, de 4,90% para 4,78%. Carnes, aves e ovos ajudaram a limitar a alta no mês, enquanto tubérculos, raízes e legumes exerceram pressão na direção contrária.
Os bens industriais avançaram 0,17%, com alta de 0,71% em Vestuário e menor influência do reajuste de cigarros. Nos bens industriais subjacentes, que excluem itens mais voláteis para captar a tendência persistente, a variação foi de 0,13%. A média móvel trimestral anualizada dessa medida recuou de 2,56% para 2,31%, enquanto o acumulado em 12 meses passou de 3,66% para 3,70%.
Entre os preços administrados, houve alta de 1,59%, principal contribuição para a aceleração do índice e para o desvio em relação à projeção. A energia elétrica avançou 7,98%, com o fim do crédito do Bônus de Itaipu, enquanto a gasolina subiu 1,21%, após queda de 0,59% em agosto. Como a retirada do benefício já foi integralmente incorporada ao resultado de setembro, esse efeito específico não deverá voltar a pressionar os próximos meses.
O que esperar da inflação à frente?
Em síntese, o IPCA de setembro veio acima do esperado e voltou a superar o teto da banda de tolerância da meta no acumulado em 12 meses. A reversão do Bônus de Itaipu e a alta da gasolina explicaram o desvio do índice cheio, mas a aceleração dos núcleos e dos serviços subjacentes mostrou que a piora não ficou restrita aos preços administrados. À frente, a inflação de serviços deve permanecer resiliente diante do mercado de trabalho aquecido, enquanto os alimentos seguem pressionados pelos efeitos climáticos, pela sazonalidade e pela perspectiva de alta das carnes. O petróleo em patamar elevado também amplia os riscos para combustíveis, passagens aéreas e bens industriais.
Mantemos nossa projeção de IPCA em 5,1% para 2026 e 4,4% para 2027, com riscos inclinados para cima. No campo da política monetária, esperamos que o Copom mantenha cortes de 0,25 ponto percentual nas próximas reuniões, levando a Selic dos atuais 13,75% para 13,25% no fim de 2026 e 11,50% em 2027. Caso a dinâmica cambial permaneça favorável e as expectativas de inflação recuem, o ritmo poderá ser ampliado para 0,50 ponto percentual já em dezembro.
Como proteger seu patrimônio?
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos que protejam seu patrimônio dessa dinâmica espiral.
Abaixo, destacamos alternativas para esse objetivo.
- Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+ / NTN-B): pagam juros reais acima da inflação, garantindo preservação do poder de compra no longo prazo. São indicados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria e formação de patrimônio.
Como ficam os investimentos atrelados ao IPCA?
Com o resultado de setembro, temos um IPCA de 4,58% em 12 meses, e a inflação segue acima da meta do BC (3,0%). Com a Selic em 13,75% e o cenário exigindo cautela, proteger seu patrimônio continua essencial.
Se você tivesse investido R$ 10 mil há 12 meses em um título atrelado à inflação pagando IPCA + 6% a.a., seu resultado seria:
- Inflação acumulada (IPCA 12m): 4,58% (aproximadamente 0,37% ao mês).
- Juros reais de 6% ao ano, equivalente a 0,5% ao mês.
- Rentabilidade total ao mês: 0,87%
Com um investimento de R$ 10.000,00, o valor total acumulado após 12 meses seria de R$ 11.095,43, antes da dedução do Imposto de Renda. Considerando o resgate do investimento, o valor líquido seria de R$ 10.876,35 — o que representa uma rentabilidade líquida de R$ 876,35 em um ano, aplicada em um título indexado ao IPCA.
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos atrelados ao IPCA, que ajudam a proteger sua rentabilidade contra a perda do valor real do dinheiro — principalmente em momentos como o atual, em que a inflação segue pressionada.
- Debêntures incentivadas: isentas de IR para pessoa física, remuneram com juros reais e podem oferecer retornos superiores aos títulos públicos, com o benefício fiscal aumentando o rendimento líquido.
- Crédito privado de emissores sólidos: CDBs, LCIs, LCAs e outros papéis de instituições com boa avaliação de risco, que oferecem prêmios adicionais sobre a renda fixa tradicional.
- Fundos imobiliários indexados à inflação: mesmo com maior volatilidade no curto prazo, podem gerar renda mensal ajustada pelo IPCA e diversificar o portfólio. São especialmente úteis para quem busca fluxo de caixa recorrente e proteção contra perda do poder de compra.
Segundo o nosso especialista em investimentos Antônio Sanches, “é possível proteger o seu patrimônio investindo de forma que seu dinheiro cresça de fato acima da inflação”.
Veja abaixo a análise completa: Inflação alta? Proteja os seus investimentos | Escola de Investidores
Ao diversificar entre essas classes, o investidor reduz riscos, mantém resiliência diante de diferentes cenários econômicos e preserva o valor real do patrimônio, afinal nem só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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