O IPCA, principal índice de preços do Brasil, avançou 0,33% em dezembro, após registrar leve avanço de 0,018% em setembro. Dessa forma, o índice acumulou 4,26% em 2025, conseguindo ficar abaixo da banda limite da meta (4,5%). O resultado foi aproximadamente 5% abaixo em relação a 2024, que terminou com o IPCA em 4,83%, acima da banda limite.
Apesar do resultado positivo com um movimento gradual de desaceleração no ano, a inflação segue acima da meta do Banco Central (3,0%), apesar de ter fechado o ano com o resultado acumulado fica abaixo do teto da banda de tolerância (4,5%). Isso significa que as ações do BC estão sendo refletidas nos preços da economia e, dessa forma, o a Selic deve ser mantida em patamar elevado por mais tempo para trazer os preços de volta à meta.
Meta de inflação: o que é?
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária – a política responsável pelo controle da quantidade de moeda em determinada economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que ela se mantenha no ritmo de 3,00%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 pontos percentuais para cima e para baixo. Essa “banda” serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma pandemia que derrube os preços.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
Por que a inflação subiu em dezembro?
A alta do mês veio principalmente de Transportes, com passagens aéreas e transporte por aplicativo acelerando e puxando o grupo; a gasolina avançou de forma leve, enquanto o etanol subiu mais.
Em Alimentos no domicílio, após seis meses de queda, os preços voltaram a subir (+0,14%), com carnes e frutas entre os itens de maior influência, e a alimentação fora de casa também acelerou (+0,60%).
Em Saúde e cuidados pessoais, o grupo avançou (+0,52%), contribuindo para a alta do mês. Na direção contrária, houve alívio nos preços administrados: a energia elétrica caiu (−2,41%) com bandeira amarela, e o ônibus urbano recuou por efeitos sazonais, o que ajudou a conter parte da pressão do índice.
Bens industriais: fim das promoções e alta sazonal
Depois de novembro com forte Black Friday, dezembro trouxe reversão em diversos itens de bens, com industriais +0,48% e duráveis +0,46%. Artigos de residência subiram (+0,64%) e aparelhos telefônicos tiveram reajustes.
Mesmo assim, a tendência dos bens segue moderada: a média anualizada dos últimos três meses ficou próxima de 1,2% — isto é, a variação média de três leituras recentes projetada como ela equivaleria em um ano, caso o mesmo ritmo se repetisse — e, em 12 meses, o grupo acumula alta ao redor de 2,4%. Além do fim das ofertas, pesaram a troca de coleção no varejo e a reposição de estoques, com ajustes em eletrônicos e vestuário (semiduráveis +0,30%).
Serviços: alta no mês, mas núcleos mostram alívio
O grupo Serviços avançou +0,72% em dezembro, com viagens e alimentação fora de casa entre os destaques. Para enxergar a tendência, em termos simples, utilizamos o “núcleo”, uma medida que retira os itens muito voláteis e algumas tarifas. Esse núcleo de serviços subiu +0,56% no mês e sua média dos últimos três meses, ajustada e anualizada, saltou para 5,1%.
Já os serviços intensivos em trabalho (como restaurantes, cabeleireiros e consertos) subiram +0,77% e a média anualizada de três meses avançou para 7,9%, sinal de pressão associada ao mercado de trabalho.
A inflação de serviços segue distante da meta de 3,0% do Banco Central, com o acumulado em 12 meses ficando em 5,95% e os intensivos em trabalho fechando o ano em 6,83%. Adiante, vemos movimento lento para a inflação de serviços convergir à meta, dado que o mercado de trabalho segue apertado e os componentes cíclicos do PIB devem acelerar nos próximos trimestres. Nossa projeção para inflação de serviços em 2026 é de 5,3%
Cenário externo e doméstico
Do lado externo, o câmbio mais favorável ajudou no resultado de 2025. Por outro lado, o mercado de trabalho segue aquecido, com uma taxa de desemprego próxima das mínimas históricas e em salários reais em alta.
O risco fiscal continua sendo fator de atenção, pois gastos elevados do governo podem impulsionar a renda e, consequentemente, sustentar a demanda. Além disso, a devemos acompanhar os movimentos da taxa de câmbio. Muitos alimentos (como trigo e cacau) e insumos industriais (como tecidos e componentes eletrônicos) são cotados em dólar. Assim, quando o real se valoriza, esses itens ficam mais baratos; quando se desvaloriza, ficam mais caros.
Vale lembrar que o patamar da taxa de câmbio influencia diretamente e indiretamente a variação dos preços de alimentos consumidos domesticamente, em maior ou menor intensidade.
Afinal, grande parte do que consumimos é negociado internacionalmente (como cacau e proteínas) ou mesmo importado – como o trigo, e matérias primas para roupas e eletrônicos.
Detalhamos mais como a variação da taxa de câmbio impacta o poder de compra do brasileiro nesse texto.
Por que o dólar caiu em 2025?
Após um final de 2024 marcado por forte desvalorização, 2025 ilustrou um cenário diferente – e positivo – para nossa taxa de câmbio: em 2025 o real acumulou alta de aproximadamente 11% frente ao dólar, o que faz com que o real um dos destaques dentre as moedas latino-americanas com o melhor desempenho em 2025.
A explicação por trás da performance positiva é encontrada majoritariamente em fatores internacionais – em especial, a recente desvalorização do dólar no mundo, na esteira do crescimento das incertezas nos Estados Unidos, principalmente diante da política tarifária de Donald Trump. Assim, em meio a receios de uma recessão nos Estados Unidos e questionamentos sobre a posição do dólar e ativos norte-americanos como “porto seguro” no mundo, a moeda americana enfraqueceu.
Além disso, o Brasil passou a ser visto como um beneficiário relativo do “xadrez tarifário global”, atraindo parte do fluxo estrangeiro em busca de retornos além dos Estados Unidos – o que tem contribuído para manter nossa moeda em nível relativamente mais forte do que o esperado frente ao cenário macroeconômico doméstico.

Dito isso, não vemos fortalecimento adicional da taxa de câmbio, uma vez que: (i) o ciclo de cortes de juros pelo Fed não deve ser agressivo; (ii) as incertezas fiscais e políticas seguem elevadas; e (iii) a dinâmica do balanço de pagamentos preocupa. Detalhamos nossa visão sobre o que esperar para a nossa moeda adiante aqui.
O que esperar daqui para frente?
O resultado de dezembro reforça a leitura de que o processo de desaceleração econômica segue em curso, ainda que com nuances importantes. Para 2026, a expectativa é que o IPCA continue em processo de desaceleração gradual, refletindo a atuação do Banco Central em deixar a taxa básica de juros em alta por mais algum tempo.
Nossa projeção para 2026 é de inflação em 4,0%. Ainda que os núcleos de inflação tenham mostrado desaceleração na margem — em linha com os preços ao atacado bem-comportados e cotações do petróleo mais baixas. Prevemos inflação de 4,0% também em 2027, refletindo a desancoragem persistente das expectativas de médio prazo.
Diante disso, seguimos projetando o início do ciclo de cortes da Selic apenas em março, com a taxa básica encerrando 2026 em 12,50%, refletindo a necessidade de manutenção de juros elevados por mais tempo para garantir a ancoragem das expectativas e a convergência da inflação.
Em resumo:
- Inflação do mês de dezembro: +0,33%
- Acumulado em 2025: 4,26%
Como ficam os investimentos atrelados ao IPCA?
Com resultado de dezembro, temos um resultado do IPCA em 4,26% em 12 meses, e a inflação segue acima da meta do BC. Com a Selic em 15% e o cenário exigindo cautela, proteger seu patrimônio continua essencial.
Se você tivesse investido R$ 10 mil há 12 meses em um título atrelado à inflação pagando IPCA + 6% a.a., seu resultado seria:
- Inflação acumulada (IPCA 12m): +4,26% (aproximadamente 0,35% ao mês).
- Juros reais de 6% ao ano, equivalente a 0,49% ao mês.
- Rentabilidade total ao mês: 0,84%
Com um investimento de R$ 10.000,00, o valor total acumulado após 12 meses seria de R$ 11.055,90, antes da dedução do Imposto de Renda. Considerando o resgate do investimento, o valor líquido seria de R$ 10.844,72 — o que representa uma rentabilidade líquida de R$ 844,72 em um ano, aplicada em um título indexado ao IPCA.
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos atrelados ao IPCA, que ajudam a proteger sua rentabilidade contra a perda do valor real do dinheiro — principalmente em momentos como o atual, em que a inflação segue pressionada.
Como proteger sua carteira
Com a inflação ainda acima da meta e a Selic em patamar elevado por mais tempo, o investidor deve estruturar uma carteira que proteja o poder de compra e aproveite o ambiente de juros altos:
- Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+ / NTN-B): pagam juros reais acima da inflação, garantindo preservação do poder de compra no longo prazo. São indicados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria e formação de patrimônio.
- Debêntures incentivadas: isentas de IR para pessoa física, remuneram com juros reais e podem oferecer retornos superiores aos títulos públicos, com o benefício fiscal aumentando o rendimento líquido.
- Crédito privado de emissores sólidos: CDBs, LCIs, LCAs e outros papéis de instituições com boa avaliação de risco, que oferecem prêmios adicionais sobre a renda fixa tradicional.
- Fundos imobiliários indexados à inflação: mesmo com maior volatilidade no curto prazo, podem gerar renda mensal ajustada pelo IPCA e diversificar o portfólio. São especialmente úteis para quem busca fluxo de caixa recorrente e proteção contra perda do poder de compra.
Ao diversificar entre essas classes, o investidor reduz riscos, mantém resiliência diante de diferentes cenários econômicos e preserva o valor real do patrimônio, afinal nem só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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