Em junho, quem rendeu mais na renda fixa foi o crédito privado pós-fixado: o IDA-DI subiu 1,23%, à frente do CDI (1,12%). No outro extremo, os títulos de inflação mais longos ficaram no vermelho — o IMA-B 5+ caiu 2,05%, a pior performance do mês. O pano de fundo: o Copom reduziu a Selic para 14,25% ao ano, dando sequência ao ciclo de flexibilização monetária. No cenário externo, a redução das tensões no Oriente Médio levou o petróleo de volta para perto de US$ 70/barril, aliviando parte das pressões inflacionárias de curto prazo. Ainda assim, a inflação global seguiu pressionada e a atividade resiliente nos Estados Unidos sustentou o discurso cauteloso do Fed, mantendo a curva americana em patamar elevado. No Brasil, o corte da Selic contribuiu para o recuo da ponta curta, enquanto os vértices longos permaneceram pressionados pela deterioração do cenário inflacionário e pelas incertezas fiscais, com a NTN-B 2035 encerrando a 8,14% (vs. 7,72% em maio).
Por trás desses números, o crédito privado teve dois movimentos que valem atenção. Os ativos atrelados ao CDI+ interromperam o fechamento observado nos meses anteriores e apresentaram leve abertura, ainda que os spreads sigam bem abaixo dos níveis vistos no estresse de abril. Já os ativos IPCA+ tiveram desempenho mais favorável, com fechamento dos prêmios ao longo do mês, após a estabilização de maio.
| Índice | Categoria | O que representa? | Rentabilidade no mês | Rentabilidade em 12 meses |
| CDI | Pós-fixado | Referência para renda fixa conservadora | 1,12% | 14,85% |
| Poupança | Pós-fixado | Comparativo popular | 0,67% | 8,35% |
| IMA-B 5 | Inflação | NTN-Bs com vencimento até 5 anos | 0,22% | 12,39% |
| IMA-B 5+ | Inflação | NTN-Bs com vencimento acima de 5 anos | -2,05% | 6,23% |
| IPCA | Inflação | Inflação do mês (referência real) | 0,16% | 4,64% |
| IRF-M | Prefixado | Títulos prefixados do Tesouro | 0,69% | 12,65% |
| IHFA | Multimercados | Comparativo com a gestão ativa | 0,51% | 10,49% |
| IDA-DI | Crédito Privado | Debêntures pós-fixadas | 1,23% | 15,01% |
| IDA-IPCA | Crédito Privado | Debêntures indexadas ao IPCA | -0,07% | 6,93% |
Pós-fixados (CDI e poupança): consistência e sem surpresa
O CDI rendeu 1,12% em junho, o equivalente a cerca de 14,85% ao ano no ritmo atual. Com a Selic em 14,25% — reduzida em 17/06/2026 —, quem estava alocado em CDB de liquidez diária, Tesouro Selic, LCI ou LCA capturou praticamente esse retorno sem variação de cota e sem exposição ao risco de mercado.
A poupança rendeu 0,67% no período, o equivalente a apenas 56,4% do CDI. É o pior resultado entre os pós-fixados e segue sendo a alternativa menos eficiente para quem tem acesso a outros produtos de renda fixa — mesmo entre as opções mais conservadoras, há escolhas mais vantajosas com a mesma liquidez.
IMA-B (Tesouro IPCA): a inflação e a curva longa influenciaram o resultado
O IMA-B 5 rendeu 0,22% e o IMA-B 5+ caiu 2,05% no mês. Dois fatores explicam a diferença: o IPCA de junho, de 0,16%, é o componente que corrige esses títulos pela inflação; e o movimento das taxas longas de juros, que abriram ao longo do período, pesando sobre os vencimentos mais longos.
A abertura das taxas pressionou a marcação a mercado dos papéis de maior prazo, limitando ou até anulando o efeito da correção pela inflação no mês. É um comportamento esperado em momentos de incerteza sobre a trajetória dos juros, como o observado em junho, quando o corte da Selic para 14,25% contribuiu para o recuo da ponta curta da curva, mas os vértices mais longos seguiram pressionados pelo cenário inflacionário e fiscal. A NTN-B 2035, por exemplo, encerrou o mês a 8,14%, ante 7,72% em maio.
Vale ter sempre em mente: títulos indexados ao IPCA não são investimentos sem volatilidade. O retorno real só é garantido se o investidor carrega o papel até o vencimento. Antes disso, o preço oscila com a abertura ou fechamento das taxas de mercado, e quanto maior o prazo do ativo, maior essa sensibilidade.
IRF-M: prefixados no radar
O IRF-M, que reúne os títulos prefixados do Tesouro, rendeu 0,69% em junho. Essa categoria é a mais sensível a expectativas sobre política monetária: quando o mercado projeta que os juros vão permanecer elevados por mais tempo, as taxas dos títulos mais longos tendem a abrir, gerando perda na marcação a mercado. O oposto acontece quando surge sinalização de início de cortes.
Apesar da redução da Selic no mês passado, a extensão do horizonte relevante de política monetária levou inicialmente à abertura da curva de juros. Posteriormente, a ata e o Relatório de Política Monetária ajudaram a reverter parte desse movimento, ao reforçarem uma mensagem cautelosa diante dos desafios ainda presentes para a convergência da inflação à meta, o que aliviou parte da pressão sobre a curva e beneficiou o retorno dos prefixados de prazo mais curto.
Ainda assim, os vértices mais longos seguiram pressionados. No cenário atual, com Selic em 14,25% e nossa projeção para inflação em 5,2% para 2026, acima da meta do BC de 3,0%, os prefixados de prazo mais longo seguem carregando um risco elevado de volatilidade no curto prazo.
Crédito privado: o prêmio existe, mas com cautela
O IDA-DI, que mede o desempenho das debêntures indexadas ao CDI, rendeu 1,23% no mês — equivalente a 101,1% do CDI. O spread adicional em relação aos títulos públicos existe por uma razão: risco de crédito do emissor. Além disso, o resultado mensal do índice pode ser influenciado pelo movimento dos spreads no mercado secundário — quando as condições de crédito pioram, os spreads abrem e os preços caem, mesmo sem inadimplência.
O IDA-IPCA, para debêntures indexadas à inflação, ficou em -0,07%. Aqui, somam-se dois fatores: o risco de crédito e o efeito de duration, já que o comportamento das taxas longas de juros afeta a precificação dessas debêntures no secundário da mesma forma que afeta as NTN-Bs.
IHFA: a gestão ativa teve destaque?
O IHFA, índice que agrega os fundos multimercados, rendeu 0,51% em junho. Ele serve como régua para avaliar se a gestão ativa gerou valor frente à renda fixa mais simples. Em junho, o índice ficou bem abaixo do CDI, o que reforça o momento desafiador dos fundos de investimentos diante de um cenário de juros elevados por um longo tempo.
Vale o registro: o IHFA agrega fundos com estratégias bastante distintas — macro, long & short, quantitativo, entre outros — e o resultado de um mês isolado diz pouco sobre a qualidade de uma estratégia. A comparação é útil como referência de contexto, não como critério isolado de decisão.
Destaques do mês
O destaque negativo de junho foi o IMA-B 5+, que sofreu com a abertura da curva de juros nos vencimentos mais longos, pressionada pela deterioração do cenário inflacionário e pelas incertezas fiscais. Já o destaque positivo ficou com o IDA-DI, beneficiado pelo elevado patamar de juros, que sustenta o carrego das debêntures pós-fixadas, e pela estabilidade dos spreads de crédito privado, ainda próximos da média histórica.
Para quem acompanha a renda fixa com regularidade, o resultado de junho reforça uma lição recorrente: prazo e indexador definem o comportamento da carteira muito mais do que o nome do índice, e diversificar entre pós-fixados, inflação e prefixados continua sendo a forma mais eficiente de atravessar meses de curva volátil.
O que acompanhar em julho
Sem Copom no mês, três frentes devem ditar o humor da curva de juros e, por consequência, o desempenho dos títulos IPCA+ e prefixados: o cenário fiscal doméstico, que segue como principal driver dos juros reais longos; a leitura de inflação, com o IPCA do mês e o Focus no radar diante da nossa projeção de 5,2% para 2026, ainda acima da meta; e o cenário externo, em especial a comunicação do Fed e o preço do petróleo, que voltou a rodar perto de US$ 70/barril, após relativo alívio nas negociações no Oriente Médio.
Este conteúdo é informativo e não constitui recomendação de investimento. Para equilibrar risco e retorno na renda fixa, nós atualizamos continuamente nossas recomendações com os melhores títulos em cada indexador. Acesse agora a nossa Carteira de Renda Fixa e veja as oportunidades do momento.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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