(De: Mayara Rodrigues, Analista de Renda Fixa)

IPCA+ é a “bola da vez” no mundo da renda fixa? Para nós, sim!

O cenário econômico apresentou mudanças relevantes nas últimas semanas, trazendo consigo oportunidades para investimentos em ativos IPCA+, uma vez que houve uma abertura relevante dos juros reais. Entenda abaixo mais detalhes de como o IPCA+ é a bola da vez em Renda Fixa.

Em 2024, presenciamos um movimento global de reprecificação dos ativos, impulsionada por uma conjunção de fatores: (i) um banco central americano mais conservador; (ii) uma demanda doméstica ainda aquecida; e (iii) incertezas em relação às contas públicas brasileiras. 

Tal cenário acaba exigindo uma cautela adicional na política monetária por aqui, o que se traduziu em revisões das expectativas dos analistas em relação ao rumo de diversos indicadores, incluindo a Selic – a taxa básica de juros da economia – e a inflação.

Neste sentido, em meados de abril, o nosso time de economia elevou a taxa Selic esperada para 2024 para 10,0%, de 9,0% anteriormente, e uma alteração similar para o ano de 2025. Já em relação à inflação, o indicador esperado para 2024 passou para 3,7%, ante 3,5%, enquanto a variação para 2025 foi mantida em 4,0%.

Quando isso acontece, os títulos atrelados ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), também chamados de “IPCA+”, valorizam. Vale destacar que estes ativos passam por variações para cima ou para baixo ao longo do tempo, chamadas de marcação a mercado, sendo a que rentabilidade contratada é garantida quando o título é mantido na carteira até a data de vencimento.

Como exemplo, os títulos públicos indexados à inflação, as NTN-Bs – Notas do Tesouro Nacional série B, conhecidas também como Tesouro IPCA+ na plataforma do Tesouro Direto, ultrapassaram o patamar de 6,0% nas últimas semanas. Em uma análise desde 2009 para o título NTN-B com vencimento em 2035, foi possível adquirir os títulos emitidos pelo governo neste patamar em 30,7% do tempo. Contudo, vale destacar que houve dois eventos extraordinários no período, sendo eles (i) a crise do subprime iniciada em 2008; e (ii) a crise política interna, que teve seu auge em 2016. Considerando os últimos 5 anos (desde 2019), este percentual cairia para menos de 10,0%.

Uma situação similar pode ser observada para a NTN-B 2028: desde 2018, quando foi criada, as taxas dos papéis permaneceram acima de 6,0% somente em 6,7% do período analisado.

Acreditamos que o cenário atual esteja atrativo para a renda fixa, incluindo títulos IPCA+, sendo possível a alocação por meio de títulos públicos ou privados, que normalmente utilizam as NTN-Bs como referência em sua remuneração.

Mas, além do momento oportuno propriamente dito, há outras 3 (três) razões para investir em IPCA+:

1. Previsões nem sempre acertam

A história recente mostra que estimativas para o IPCA de economistas (representadas pelo Boletim Focus, do Banco Central – BC) ou de mercado (via inflação implícita nos contratos futuros) mutas vezes se mostram erradas. E, na maioria das vezes, para baixo – a inflação acaba sendo maior do que a projetada.

O motivo por trás disso é que choques inflacionários tendem a ser positivos e em grandes magnitudes. Além disso, chamam-se “choques” justamente pela sua natureza imprevisível, e não estão contemplados nas projeções.

Apesar da inflação local ter apresentado queda nos últimos meses, o índice de preços permanece acima da meta do Banco Central (BC) de 3,0%. Adicionalmente, há algumas semanas, o consenso de mercado vem apresentando tendência de alta para a inflação brasileira em decorrência, entre outros fatores, da (i) depreciação recente da taxa de câmbio; (ii) elevação dos preços das commodities; (iii) atividade mais forte; e (iv) preocupação com a política fiscal tanto em 2024 quanto em 2025.

Portanto, podemos imaginar que este período de IPCA abaixo das estimativas Focus pode ter fim, assim como aconteceu no histórico apresentado no gráfico abaixo – até a publicação deste relatório, o Focus projetava uma inflação de 3,73% para 2024 e 3,60% para o ano seguinte.

Historicamente, quando houve divergência entre o que projetavam e quanto de fato foi a inflação, os erros mais significativos se deram em momentos de IPCA realizado muito superior às estimativas. Desde o ano de 2011, a média de erro do Boletim Focus foi de cerca de +1,0% em relação ao esperado e a média de erro da inflação implícita foi cerca de +0,6% acima do que era indicado nas estimativas.

Portanto, notamos ser complexo acertar ou prever choques inflacionários, mesmo por parte de especialistas no tema. Por este motivo, é importante alocar parte dos recursos em títulos que protejam destes possíveis choques, caso venham a acontecer.

2. Proteção do patrimônio no longo prazo

Atualmente, todos os títulos públicos indexados à inflação (NTN-Bs) estão pagando juro real acima de 6,0%. Ao investir em títulos IPCA+, e os levando até o vencimento, há previsibilidade deste retorno real (em geral mais elevado do que no caso do CDI) contratado no momento da aplicação.

No entanto, vale ressaltar que antes do vencimento os ativos em IPCA+ apresentarão volatilidade, sendo maior quanto mais longo for o título. É possível observar que quando o IPCA sobe, existe tendência de elevação no juro real (pois o BC pode buscar combater a inflação com aumento de juros ou manutenção do patamar elevado por mais tempo). Isto tende a gerar oscilações nos preços dos ativos atrelados ao índice.

Dada a volatilidade, é possível que investidores prefiram os títulos pós-fixados. Afinal, a Selic hoje está em 10,75%, e deve permanecer em patamar de dois dígitos pelo menos até o final do ano que vem, segundo o nosso time de Economia.

No entanto, é possível observar que, nos últimos 15 anos, o retorno real médio de um investidor que aplicou apenas em CDI foi de cerca de 3% ao ano. Ou seja, a NTN-Bs pagam hoje aos investidores um juro real que é quase o dobro do rendimento real médio em CDI dos últimos 15 anos.

Por fim, apesar de títulos pós-fixados serem ótimas opções para determinados objetivos, nem sempre o CDI acompanhará a alta do IPCA, não sendo um instrumento eficaz para manutenção do poder de compra e acúmulo de juro real.

3. Há “triggers” (catalisadores) para uma inflação mais contundente adiante

Atualmente, há alguns fatores a serem acompanhados que podem desencadear uma inflação maior.

No cenário global, vimos o banco central americano (Fed) passando a ser mais conservador. O presidente da entidade, Jerome Powell, tem sido mais vocal sobre levar mais tempo para os membros do comitê de política monetária ganharem confiança de que a inflação está convergindo de forma sustentável para a meta, sendo provável que as taxas permaneçam altas por mais tempo por lá. Em meio a esse cenário, os preços das commodities começaram a reverter a queda vista no final de 2023.

No campo doméstico, o risco fiscal ganhou tração, principalmente, após a aprovação do novo Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), que postergou as metas de resultado primário de 1,0% de 2026 para 2028, com aumento da dívida pública em relação ao PIB para quase 80%, dos atuais 75% aproximadamente.

Os acontecimentos acima têm trazido importantes oscilações nas expectativas futuras de juros (nominal e real), com a menor previsibilidade da economia e pressões no câmbio e na inflação.

Apesar de entendermos que muitos desses riscos já estejam mapeados e embutidos nas taxas negociadas dos títulos de renda fixa, não se pode descartar a possibilidade de deteriorações adicionais, a depender de medidas que venham a ser anunciadas nos próximos meses, além da possível influência do cenário externo.

Como investir em IPCA+?

Essa categoria de investimento pode ser acessada tanto via títulos públicos quanto a partir de crédito privado. Mensalmente, publicamos as nossas recomendações para ambas as categorias. Caso queira saber mais, acesse nossa carteira aqui.

Elaborado por:

Júlia Aquino, CNPI 3607

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