A Faria Lima consolidou-se como o principal eixo corporativo de São Paulo, combinando baixa vacância, elevada liquidez e os aluguéis mais altos do mercado. Ao mesmo tempo, observa-se a expansão de outras regiões estratégicas da cidade, com destaque para a Chucri Zaidan, que vem ganhando espaço como alternativa relevante para empresas que buscam lajes de alto padrão, com maior disponibilidade de área e valores de locação mais acessíveis.
A questão central, portanto, não é se uma região deve substituir a outra, mas como cada uma deve ser interpretada dentro do ciclo atual do mercado corporativo paulistano. De um lado, a Faria Lima preserva seu prêmio por localização e prestígio. De outro, a Chucri Zaidan avança com absorção líquida consistente, estoque qualificado e espaço para evolução adicional dos valores de locação.
Para responder a essa comparação, analisamos séries históricas de vacância, absorção líquida e valor de aluguel, além do retrato do 2T26 nos edifícios de padrão mais elevado das respectivas regiões. Em síntese, a leitura daqui para frente tende a ser complementar: a Faria Lima como eixo consolidado e a Chucri Zaidan como mercado em evolução, ambas com oportunidades, ainda que sob óticas distintas.
Contexto do ciclo imobiliário corporativo em São Paulo
O mercado corporativo de São Paulo vem consolidando sua recuperação desde 2022, após o estresse observado entre 2020 e 2021, em razão da pandemia. Nos edifícios Classe A+, o 2T26 confirmou a continuidade desse movimento, com absorção líquida total de aproximadamente 45 mil m², entregas de 30 mil m² no trimestre e redução da vacância de 14,3% no 4T25 para 12,6% no 2T26. Em outras palavras, a ocupação avançou mesmo com a entrada de nova oferta — um sinal relevante da recuperação consistente desse mercado.
A tabela abaixo resume os dados agregados do 2T26 para os edifícios Classe A+ em São Paulo:
| Indicação de absorção | Valor aproximado (m²) |
| Absorção líquida total (A+) | 44.762 |
| Novas entregas no trimestre | 30.022 |
Esse pano de fundo ajuda a contextualizar o momento dos principais eixos corporativos da cidade. O debate já não se limita à retomada da demanda, mas à forma como essa recuperação se distribui entre regiões mais avançadas no ciclo imobiliário, com preços mais ajustados, e regiões ainda em recuperação, com maior espaço para a captura de valor nos aluguéis.

Nesse contexto, a comparação entre Faria Lima e Chucri Zaidan ganha relevância. A Faria Lima segue como a principal referência de preço e liquidez, enquanto a Chucri Zaidan se consolida como um polo que combina qualidade, infraestrutura e níveis de aluguel ainda inferiores aos dos eixos mais tradicionais. No gráfico abaixo, podemos analisar a evolução do preço médio pedido em escritórios classe A+ em São Paulo, com seu pico atingido no final do ano passado, seguido de leve correção nos dois primeiros trimestres de 2026, refletindo um movimento de leve correção e estabilização dos preços, diante de um cenário ainda de juros em patamares elevados.

O que aconteceu até o 2T26?
A leitura por submercado ajuda a entender como os movimentos do trimestre reforçam essa análise. No segmento Classe A+, os dados do 2T26 indicam comportamentos distintos entre os principais eixos corporativos de São Paulo.
| Região | Vacância (%) | Preço (R$/m²/mês) | Absorção Líquida (mil m²) |
| Faria Lima | 9,8% | R$ 333 | 4.092 |
| JK | 4,8% | R$ 337 | 0 |
| Paulista | 2,8% | R$ 166 | -577 |
| Pinheiros | 1,9% | R$ 187 | -127 |
| Chucri Zaidan | 9,9% | R$ 129 | 18.661 |
| Chácara Sto. Antônio | 27,5% | R$ 75 | 767 |
A Faria Lima voltou a registrar absorção líquida positiva no trimestre — superior a 4 mil m² —, revertendo o sinal negativo observado no 4T25 e no 1T26. O movimento confirma a leitura de que as devoluções pontuais dos trimestres anteriores tinham caráter transitório: em um mercado estruturalmente comprimido, o espaço devolvido foi rapidamente reabsorvido, com a vacância recuando de 10,84% (1T26) para 9,83% (2T26) e os preços pedidos mantidos praticamente estáveis, ao redor de R$ 333/m²/mês. A combinação de vacância baixa e preços firmes preserva o elevado poder de negociação dos proprietários e sustenta a tese do eixo.
Já a Chucri Zaidan reforçou o crescimento observado no fim de 2025: a absorção líquida saltou para mais de 18,6 mil m² no 2T26, o maior volume entre os submercados analisados, enquanto os preços seguiram competitivos frente à qualidade dos ativos (cerca de R$129/m²/mês). O destaque é a forte compressão da vacância, que caiu de 12,47% (1T26) para 9,88% — abaixo de 10%. Esse dado consolida uma dinâmica importante do mercado atual: parte relevante da demanda tem migrado para regiões que oferecem lajes modernas, boa infraestrutura e custo de ocupação mais atrativo.
Esse movimento não reduz a força dos eixos tradicionais, a própria Faria Lima e o JK (que elevou o preço pedido para cerca de R$ 337/m²/mês, com vacância de apenas 4,8%) seguem defendendo patamares elevados, mas amplia o espectro de oportunidades: regiões consolidadas tendem a defender preços, enquanto áreas em maturação, como a Chucri Zaidan, já traduzem esse potencial em valorização adicional à medida que a vacância se comprime.
Localização ainda é o principal vetor de preço
Por classe de edifícios, o mercado corporativo paulistano indica que o poder de repasse de aluguel está menos associado à classificação do ativo e mais à combinação entre qualidade e localização. No 2T26, os imóveis Classe A+ operaram com vacância média próxima de 13%, enquanto os edifícios Classe A registraram cerca de 21% e os Classe B ficaram ao redor de 13%.
| Classe | Mediana de Vacância | Preço médio pedido (R$/m²/mês) |
| A+ | 12,6% | R$ 139,23 |
| A | 21,1% | R$ 73,61 |
| B | 13,0% | R$ 103,88 |
A principal leitura não está apenas na diferença entre classes, mas no papel estrutural da localização como âncora de preço. Em alguns casos, esse fator é tão determinante que ativos Classe B, quando inseridos em eixos muito valorizados, conseguem sustentar aluguéis médios superiores aos de edifícios Classe A em regiões menos consolidadas. Isso ajuda a explicar por que a precificação do mercado corporativo paulistano segue concentrada em poucos polos, com destaque para a Faria Lima.
Faria Lima: região consolidada, preço defendido, microvolatilidade de fluxo
A Faria Lima continua sendo o principal termômetro de preço e liquidez do mercado corporativo de São Paulo. A região opera com uma das menores taxas de vacância da cidade e sustenta aluguel acima de R$ 300 por metro quadrado nos ativos Classe A+, reforçando seu papel como endereço mais disputado do mercado.

Essa resiliência não decorre apenas da demanda consistente, mas também da natureza do estoque: há pouca disponibilidade, os ativos são altamente qualificados e a localização concentra empresas para as quais presença, centralidade e reputação são tão relevantes quanto o espaço físico. Assim, mesmo quando ocorrem devoluções pontuais, a reocupação tende a ser relativamente rápida, com impacto limitado sobre os preços pedidos.
Na prática, a Faria Lima funciona como um mercado de escassez estrutural, o que sustenta os valores, preserva o poder de barganha dos proprietários e reduz a volatilidade do eixo, mesmo diante de eventuais novas entregas.
Chucri Zaidan: a tração da ocupação e a janela de preço
O que torna a Chucri Zaidan relevante neste ciclo não é apenas o volume de estoque, mas a qualidade do que foi desenvolvido na região. O cluster reúne lajes corporativas amplas, edifícios modernos, padrão construtivo elevado, certificações ambientais, oferta de serviços e boa conexão com eixos viários e transporte público.
Essa combinação ajuda a explicar por que a região vem mostrando melhora consistente na ocupação. No 2T26, a Chucri Zaidan registrou absorção líquida de aproximadamente 18,7 mil m² em edifícios Classe A+, com vacância de 10% e preço pedido médio de R$ 129/m²/mês. Trata-se de um nível de aluguel ainda bem inferior ao da Faria Lima, apesar da qualidade elevada dos ativos.

Além disso, a concentração de estoque A+ da região reforça a sua relevância dentro do mercado corporativo paulistano.
| Região | Classe | Estoque Total | Classe | Estoque Total | Classe | Estoque Total |
| Berrini | A+ | 245.449 | A | 104.881 | B | 397.320 |
| Chácara Santo Antônio | A+ | 183.295 | A | 92.728 | B | 219.234 |
| Chucri Zaidan | A+ | 720.576 | A | 92.993 | B | 112.174 |
| Faria Lima | A+ | 402.988 | A | 133.761 | B | 251.414 |
| Itaim Bibi | A+ | 43.010 | A | 14.526 | B | 182.120 |
| JK | A+ | 327.457 | A | 12.833 | B | 123.060 |
| Marginal Pinheiros | A+ | 122.872 | A | 289.792 | B | 35.963 |
| Paulista | A+ | 117.673 | A | 139.355 | B | 649.175 |
| Pinheiros | A+ | 126.044 | A | 68.760 | B | 205.091 |
| Rebouças | A+ | 89.301 | A | 51.194 | B | 58.290 |
| Santo Amaro | A+ | 86.004 | A | 43.752 | B | 34.197 |
| Vila Olímpia | A+ | 110.696 | A | 95.035 | B | 416.656 |
| Total | 2.575.365 | 1.139.610 | 2.684.694 |
Em mercados com vacância ainda em dois dígitos, o repasse de preço costuma acontecer com alguma defasagem. Primeiro, os espaços vagos são absorvidos. Depois, conforme a ociosidade cai e os melhores ativos ganham tração comercial, os proprietários passam a testar patamares superiores de aluguel. É aqui que Chucri Zaidan ganha força: a região já mostra sinais de melhora operacional, mas ainda não parece ter capturado integralmente esse avanço em preço.
Preço alto não significa, necessariamente, maior captura de valor real

Ao olhar a trajetória recente dos aluguéis, a diferença entre os dois eixos fica mais clara. Na Faria Lima, o patamar de preço já é muito elevado e boa parte do avanço observado ao longo do tempo parece ter refletido, sobretudo, a recomposição inflacionária. Em outras palavras, trata-se menos de um ganho real relevante e mais de um movimento de preservação de valor em um eixo já consolidado.
Na Chucri Zaidan, o comportamento é distinto. Embora a região tenha apresentado melhora de ocupação e absorção relevante, esse avanço ainda não foi acompanhado por um repasse equivalente da inflação ao aluguel. Isso sugere que o preço permanece relativamente comprimido para o padrão dos ativos e que ainda existe espaço para convergência, à medida que a vacância continue recuando e os melhores edifícios consolidem sua tração comercial.
Essa diferença é central para a tese. Na Faria Lima, os preços se mantêm em patamar historicamente elevado, mas acompanham a correção inflacionária, não configurando, portanto, ganho real no preço pedido. Na Chucri Zaidan, por sua vez, ainda há potencial de valorização, embora já se observe, até o final de 2025, uma aproximação ao preço justo.
Diagnóstico comparativo
A comparação entre Faria Lima e Chucri Zaidan evidencia dois estágios distintos dentro do mesmo ciclo. A Faria Lima opera em um ambiente consolidado, com vacância estruturalmente baixa, elevada liquidez e preços defendidos, em um nível de maturidade no qual o principal atributo é a preservação de valor.
A Chucri Zaidan, por sua vez, atravessa uma fase de convergência. A absorção líquida expressiva nos últimos trimestres, combinada ao estoque de alta qualidade e a aluguéis ainda mais contidos, indica que o ciclo de valorização está em curso, mas ainda não foi plenamente refletido nos preços.
Esse contraste ajuda a mapear as oportunidades: na Faria Lima, a tese se apoia na defesa do valor do ativo e na previsibilidade de um eixo maduro; na Chucri Zaidan, a atratividade está mais associada à captura de crescimento, em um mercado com fundamentos em melhora, mas ainda com alguma defasagem de preços.
Implicações práticas para os FIIs
Com a demanda mais resiliente e a ocupação em recuperação, os fundos de lajes corporativas tendem a se beneficiar, especialmente aqueles expostos a ativos bem localizados e com capacidade de capturar reajustes de aluguel ao longo do tempo.
No curto prazo, a Faria Lima segue como um mercado mais defensivo, com baixa vacância e dinâmica de consolidação, o que tende a aumentar a previsibilidade de resultados. Já a Chucri Zaidan permanece em fase de recuperação operacional, com avanço da ocupação e aluguéis ainda inferiores aos de outros eixos corporativos, o que sustenta sua atratividade relativa.
No médio prazo, caso o volume de novas entregas permaneça controlado, a tendência é de continuidade da redução da vacância nos edifícios Classe A+ dos principais distritos empresariais da cidade. A Faria Lima deve seguir sustentando o prêmio absoluto de preço, apoiada em escassez, liquidez e reputação. A Chucri Zaidan, por sua vez, tende a reduzir parte do desconto relativo que ainda carrega — não para igualar a Faria Lima, mas para se aproximar de um patamar mais compatível com a qualidade física e comercial de seus ativos.
Nesse contexto, FIIs com exposição a escritórios bem localizados podem se beneficiar tanto da resiliência de preços nos eixos mais consolidados quanto da melhora operacional em regiões ainda em convergência. O PVBI11 é um exemplo de fundo exposto a ativos em localizações premium, mas que atualmente enfrenta desafios de ocupação — como no Union Faria Lima, com vacância de 47% — apesar da localização privilegiada. Já o JSRE11 tem apresentado avanço na ocupação, com redução da vacância física; no Complexo Rochaverá, por exemplo, a vacância está em 3,4%, reforçando a melhora dos fundamentos operacionais do segmento e a resiliência da demanda.
Mantemos preferência por fundos expostos a escritórios localizados em regiões primárias da cidade, com potencial de valorização em um ambiente de fundamentos operacionais mais favoráveis.
Afinal, o que vemos à frente?
A leitura final não é de substituição entre Faria Lima e Chucri Zaidan, mas de convivência entre duas teses distintas dentro do mesmo ciclo. A Faria Lima segue como o mercado mais consolidado da cidade, com elevada liquidez e capacidade de preservação de valor, mesmo em um patamar já elevado de preços. A Chucri Zaidan, por sua vez, combina estoque qualificado, melhora de ocupação e aluguéis ainda relativamente comprimidos, mantendo aberta uma avenida adicional de valorização nos melhores ativos.
Em outras palavras, gostamos das duas teses, mas por razões distintas: na Faria Lima, a força está na defesa de preços e na estabilidade do eixo; na Chucri Zaidan, o diferencial reside no potencial de convergência, à medida que a demanda avança e o mercado encontra espaço para repassar aos aluguéis parte do valor ainda não capturado.
Cabe ainda destacar que, no mercado de escritórios de São Paulo, a localização continua sendo o principal vetor de precificação. Isso reforça que a comparação entre Faria Lima e Chucri Zaidan não deve se limitar à qualidade construtiva, mas considerar o peso combinado de localização, liquidez e estágio de maturação de cada eixo.
Para o investidor, a principal conclusão é que há oportunidades em ambos os mercados, desde que a régua de análise seja ajustada à natureza de cada um: preservação de valor em um caso e captura de crescimento no outro.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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