Em março, com o início do ciclo de queda da Selic, reduzida para 14,75% ao ano, os títulos pós‑fixados passaram a apresentar menor nível de remuneração. Ainda assim, seguem oferecendo taxas atrativas em termos históricos, mantendo sua relevância em um ambiente de maior incerteza quanto ao cenário macroeconômico.
Os títulos atrelados à inflação, por sua vez, apresentaram maior volatilidade, com aumento das taxas, principalmente nos vencimentos mais longos. Esse movimento refletiu o fortalecimento das pressões inflacionárias, impulsionadas pela recente escalada do preço do petróleo no cenário global, o que contribuiu para ajustes mais intensos nos juros reais ao longo da curva.
Nesse contexto, os destaques positivos ficaram com o IMA-B 5, combinando títulos públicos atrelados a inflação com vencimentos até 5 anos e o CDI. O desempenho reflete diretamente o aumento das expectativas inflacionárias, impulsionado pela alta expressiva do petróleo, que apenas em março acumulou valorização próxima de 40% e a permanência da taxa Selic em um patamar elevado, apesar do início de cortes.
| índice | Categoria | O que representa? | Rentabilidade no mês | Rentabilidade em 12 meses |
| CDI | Pós-fixado | Referência para renda fixa conservadora | 1,21% | 14,79% |
| Poupança | Pós-fixado | Comparativo popular | 0,67% | 8,35% |
| IMAB-5 | Inflação | NTN-Bs com vencimento até 5 anos | 1,39% | 12,47% |
| IMA-B 5+ | Inflação | NTN-Bs com vencimento acima de 5 anos | -0,78% | 12,65% |
| IPCA (03/26) | Inflação | Inflação do mês (referência real) | 0,88% | 4,14% |
| IRF-M | Prefixado | Títulos préfixados do Tesouro | -0,59% | 15,65% |
| IHFA | Multimercados | Comparativo com a gestão ativa | -3,42% | 14,34% |
| IDA-DI | Crédito Privado | Debêntures pós-fixadas | 0,46% | 14,31% |
| IDA-IPCA | Crédito Privado | Debêntures indexadas ao IPCA | -1,31% | 12,78% |
Pós-fixados: consistência e sem surpresa
O CDI rendeu 1,21% em março, o equivalente a cerca de 15,5% ao ano no ritmo atual. Com a Selic em 14,75% — reduzida em 0,25 bps na reunião do Copom de 18/03/2026 —, quem estava alocado em CDB de liquidez diária, Tesouro Selic, LCI ou LCA capturou praticamente esse retorno sem variação de cota e sem exposição a risco de mercado.
A poupança ficou em 0,67% no período, o que representa 55% do CDI. É o pior resultado entre os pós-fixados e segue sendo a alternativa menos eficiente para quem tem acesso a outros produtos de renda fixa — mesmo entre as opções mais conservadoras, há escolhas mais vantajosas com liquidez equivalente.
IMA-B: a inflação corrente e a curva de juros decidiram o resultado
O IMA-B 5+ rendeu -0,78% no mês. Dois fatores explicam esse número: o IPCA de fevereiro foi de 0,7%, acima da nossa projeção e das expectativas de mercado — que é o componente de correção monetária dos títulos — e o movimento da curva de juros futuros, que abriu ao longo do período devido ao cenário geopolítico pressionado.
A abertura das taxas pressionou a marcação a mercado dos papéis de maior prazo, limitando o efeito da correção pela inflação no mês. É um comportamento esperado em momentos de incerteza sobre a trajetória dos juros.
Vale ter sempre em mente: títulos indexados ao IPCA não são investimentos sem volatilidade. O retorno real só é garantido se o investidor carrega o título até o vencimento. Antes disso, o preço oscila com a abertura ou fechamento das taxas de mercado — e quanto maior o prazo do ativo, maior essa sensibilidade.
IRF-M: prefixados na corda bamba
O IRF-M, que reúne os títulos prefixados do Tesouro, rendeu -0,59% em março. Essa categoria é a mais sensível a expectativas sobre política monetária: quando o mercado projeta que os juros vão permanecer elevados por mais tempo, as taxas dos títulos mais longos tendem a abrir, gerando perda na marcação a mercado. O oposto acontece quando surge aumento da probabilidade de início de cortes.
Em março, o Copom manteve o tom vigilante em sua última comunicação, levando em consideração a piora no ambiente externo e a possibilidade de aumento de pressão inflacionária, marcando volatilidade na curva, prejudicando o retorno dos prefixados no período. No cenário atual, com Selic em 14,75% e inflação projetada acima do centro da meta para 2026, os prefixados de prazo mais longo seguem carregando um risco de volatilidade no curto prazo.
Crédito privado: o prêmio existe, mas não vem de graça
O IDA DI, que mede o desempenho das debêntures indexadas ao CDI, rendeu 0,46% no mês — equivalente a 38% do CDI. O spread em relação aos títulos públicos existe por uma razão: risco de crédito do emissor. Além disso, o resultado mensal do índice pode ser influenciado pelo movimento dos spreads no mercado secundário — quando as condições de crédito pioram, os spreads abrem e os preços caem, mesmo sem inadimplência.
O IDA IPCA, para debêntures indexadas à inflação, ficou em -1,31%. Aqui, somam-se dois fatores: o risco de crédito e o efeito de duration, já que o comportamento das taxas longas de juros afeta a precificação dessas debêntures no secundário da mesma forma que afeta as NTN-Bs. No mês de março, ocorreram eventos de crédito que impulsionaram uma elevação dos spreads, resultando em marcação negativa para investidores que já estavam alocados.
IHFA: a gestão ativa entregou?
O IHFA, índice que agrega os fundos multimercados, desvalorizou 3,42% em março. Ele serve como régua para avaliar se a gestão ativa gerou valor frente à renda fixa mais simples. Em março, o índice ficou abaixo do CDI, resultado da aversão ao risco diante do cenário global volátil, reforçando a volatilidade no prêmio pelo risco adicional de delegar a alocação a um gestor ativo no período.
Vale o registro: o IHFA agrega fundos com estratégias bastante distintas, podendo ser macro, long & short, quantitativo, entre outros, e o resultado de um mês isolado diz pouco sobre a qualidade de uma estratégia. A comparação é útil como referência de contexto, não como critério isolado de decisão.
Destaque do mês
O principal destaque do período ficou com o IMA-B 5, que apresentou a maior rentabilidade mensal entre os índices acompanhados, refletindo a combinação de juros reais ainda elevados, menor sensibilidade dos vértices mais longos da curva e maiores pressões inflacionárias impulsionando o carrego.
Para quem acompanha a renda fixa com regularidade, o resultado do mês reforça uma lição recorrente: em cenários de juros reais altos e maior volatilidade, títulos indexados à inflação mais longos tendem a apresentar marcação negativa no curto prazo, sendo importante que o investidor tenha horizonte compatível para capturar tanto o carrego real ao longo do tempo quanto eventuais ganhos de marcação a mercado em cenários de menor pressão nos preços.
O que acompanhar em abril
Três fatores devem definir o tom da curva de juros nas próximas semanas e, por consequência, o comportamento dos índices de renda fixa. O primeiro é a decisão do Copom em 29/04/26, que pode sinalizar o ritmo dos próximos ajustes na Selic. O segundo é o IPCA de março, que veio em 0,88%, acima da nossa projeção e das projeções de mercado, sugerindo que a pressão inflacionária segue presente e que os efeitos da alta do petróleo já começam a aparecer nos combustíveis, como gasolina e diesel. O terceiro é a incerteza no Oriente Médio: apesar do cessar-fogo divulgado na primeira semana de abril e das expectativas de uma solução rápida, ainda não há um encaminhamento decisivo para um acordo.
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Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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