Por: Luíza Pinese (Economia XP), Rachel de Sá (estrategista de investimentos) e Rodolfo Margato (Economia XP)
Emergindo de uma das piores performances entre moedas emergentes em 2024, para destaque positivo em 2025, e seguindo na toada positiva em 2026. De fato, o “vai e vem” do real tem sido um dos temas mais relevantes dos últimos anos para os mercados e para o dia a dia dos brasileiros.
Nesse contexto, tende a ganhar força a clássica pergunta: “mas, o que move o dólar?”. Mais precisamente, quais os fatores que explicam a movimentação da nossa taxa de câmbio?
Abaixo, detalhamos os principais elementos que explicam a variação do dólar, assim como nossas expectativas para a taxa de câmbio adiante.
O que move o dólar?
Como veremos a seguir, uma série de variáveis tende a impactar o comportamento da taxa de câmbio.
A dinâmica por trás dessa oscilação pode ser simplificada por uma relação entre oferta e demanda, uma vez que a taxa de câmbio representa o valor de uma moeda (no nosso caso, do real) em relação a outra (quase sempre, o dólar). Ou seja, quanto mais gente querendo comprar real e vender dólar, mais o real se valoriza. E a recíproca é verdadeira.
Entretanto, é possível destacar algumas das principais variáveis que impactam essa dinâmica – conforme a seguir.
1. Saldo das contas externas
As contas externas mostram as transações entre um país e o resto do mundo, e são registradas no Balanço de Pagamentos, e tem relação direta com a taxa de câmbio.
Essa relação vem do fato de que parte relevante do fluxo de capital estrangeiro que entra no Brasil é fruto de transações comerciais. De maneira simplificada: conforme a quantidade de produtos que vendemos ao mundo aumenta, ou então o seu preço fica mais caro, maior tende a ser o fluxo de capital estrangeiro no Brasil, valorizando a nossa moeda.
Uma vez que o Brasil é um dos maiores países exportadores de commodities do mundo, com bens como alimentos e petróleo respondendo por cerca de 60% do total das nossas exportações, flutuações nos preços desses insumos básicos no mercado global tendem a impactar a nossa taxa de câmbio.
Por exemplo, uma valorização esperada ou efetiva nos preços globais de minério de ferro ou soja – produtos exportados pelo Brasil – tende a levar a uma valorização do real (ou seja, redução da nossa taxa de câmbio em relação ao dólar).
2. Diferencial de juros
A diferença entre o patamar de juros no Brasil e outras economias tende a influenciar o fluxo de moeda entrando e saindo do país. Isso ocorre pois o retorno relativo entre taxas de juros é um fator central na análise de investidores para alocação de capital.
Isso significa que taxa de juros mais altas tendem a atrair mais capital. Ou seja, quanto maior o diferencial de juros entre o Brasil e outras economias (como a americana), mais investimentos podemos atrair, aumentando o fluxo de dinheiro estrangeiro e, consequentemente, valorizando a nossa moeda.
Vale destacar, no entanto, que o nível dos juros é apenas um fator na análise de alocação de capital, que inclui inúmeros outros elementos para definir a relação entre risco e retorno de um ativo e seu papel em diferentes alocações de investimento.
Fatores como o nível de estabilidade e previsibilidade jurídica, além da percepção de risco político e fiscal são também essenciais para a atração (ou não) de fluxo de investimento estrangeiros – influenciando, também sua natureza (curto, médio, longo prazo – por ex.) e, portanto, seu efeito sobre a taxa de câmbio.

3. Cenário político e risco fiscal
Como vimos, a taxa de câmbio é uma variável macroeconômica. Ou seja, ela é consequência de uma série de movimentos na economia, como o fluxo comercial entre o Brasil e o resto do mundo, e a entrada de capital estrangeiro no país (fluxo), considerando o patamar dos juros.
Porém, ao mesmo tempo, moedas também são ativos financeiros. Portanto, elas também carregam a precificação de risco, assim como outros ativos negociados no mercado, como ações, títulos de renda fixa e fundos imobiliários.
E é aqui que entra a percepção de risco do país, que refletirá muito o cenário doméstico político, e principalmente o fiscal. De maneira simplificada, o risco fiscal constitui o risco adicional considerado por investidores para alocar capital no Brasil, além dos já tradicionais incluídos no cálculo de qualquer ativo financeiro. Esse risco será incorporado no cálculo independentemente do tipo de investimento em questão – títulos públicos, privados, ações ou mesmo a nossa moeda.
Quanto maior a incerteza em relação ao cenário político e das contas públicas do país, maior tende a ser o risco apreçado na moeda. Por exemplo, se houver a percepção de que o governo gastará além do possível para manter a inflação sob controle, o investimento inicial tende a perder grande parte do seu valor (real). Assim, maior a percepção de risco – e maiores os retornos exigidos por investidores, inclusive por meio da nossa moeda. Incertezas sobre questões como a estabilidade do arcabouço regulatório e legislativo também tendem a ter impacto similar em termos de percepção de risco.
Por isso, questões como dívida pública e regras fiscais, assim como incertezas político-eleitorais, influenciam bastante a cotação do dólar por aqui.
4. Cenário externo e aversão ao risco
Por fim, a percepção de risco global também afeta o movimento da nossa taxa de câmbio. Nesse caso, por conta de como os investidores percebem o risco relativo e global.
Quanto maior o sentimento de incerteza no cenário global, mais investidores tendem a ser atraídos para investimentos tidos como “portos seguros”, como o próprio dólar e títulos da dívida americana, na direção contrária de investimentos considerados mais arriscados – como em países emergentes.
Por esse motivo, momentos de incerteza generalizada como os causados por crises geopolíticas, pandemias ou tragédias naturais tendem a prejudicar moedas mais fracas e favorecer moedas fortes, especialmente o dólar americano.
Essa relação entre o fortalecimento de ativos americanos e momentos de incerteza, no entanto, vem perdendo força – se tornando um dos principais motivos por trás desvalorização recente do dólar no mundo. Detalhamos esse tema adiante.
O Vai e Vem do dólar: a taxa de câmbio entre 2024 e 2025
A tempestade perfeita de 2024
Em 2024, a moeda brasileira se desvalorizou cerca de 25%, passando de R$/US$ 4,86 no final de 2023 para R$/US$ 6,18 no final de 2024, movimento explicado por razões internas e externas.
No cenário internacional, destacou-se a mudança de perspectiva para os cortes de juros nos Estados Unidos. Ao final de 2023, esperava-se que o Fed (Banco Central americano) reduzisse significativamente a taxa de juros no país, mas a inflação persistente e a economia ainda dinâmica limitaram o afrouxamento monetário – mantendo os juros em patamar historicamente alto. Diante dos juros altos, o dólar viveu um ano de fortalecimento, especialmente frente a moedas emergentes, como o real.
A vitória de Donald Trump também alimentou expectativas de um dólar mais forte. Com promessas de campanha associadas a maiores pressões inflacionárias (tarifas de importação, maiores restrições imigratórias, cortes de impostos), a vitória de Trump foi associada a um dólar forte. Afinal, a pressão sobre os preços limitaria o espaço para a continuidade de cortes de juros no país.
Do outro lado do mundo, a elevação dos juros no Japão contribuiu para o movimento de queda de moedas emergentes. Diante de uma verdadeira “virada de chave” do Banco Central do Japão e a elevação de juros no período, o desmonte de posições chamadas carry trade (grosso modo, operação que se baseia na compra de moedas com juros baixos para ganhos com divisas de juros maiores) ampliou a saída de capital de mercados emergentes, como o brasileiro.
Apesar da dinâmica externa, a deterioração fiscal foi a “cereja do bolo” para a forte queda do real observada ao fim de 2024. A percepção negativa de investidores sobre o equacionamento das contas públicas ganhou força em dezembro daquele ano, diante da frustração com o pacote de contenção de despesas apresentado pelo governo. O consequente aumento do risco fiscal contribuiu para levar o real para próximo de 6,30 por dólar.
Em resumo, fatores externos pressionaram o real em 2024, como observado em outras moedas emergentes, mas elementos domésticos foram centrais para que a moeda encerrasse o ano em forte depreciação.

A hora e a vez do BRL? Fatores por trás da valorização recente do real
Após um final de 2024 marcado por forte desvalorização, o ano seguinte trouxe um cenário completamente diferente para o real. Ao longo de 2025, a divisa brasileira acumulou alta de 12,8%, saindo de R$ 6,2 por dólar ao final de 2024, para R$ 5,47 por dólar ao fim de dezembro.

Fatores globais determinaram a performance positiva do real em 2025. Diferentemente do que observamos no “pico de estresse cambial” do fim do de 2025 – causado principalmente por fatores domésticos, que reforçaram uma dinâmica relativa desfavorável a moedas emergentes – o movimento da nossa taxa de câmbio em 2025 se deu principalmente na esteira de fortes ventos globais.
O questionamento dos EUA como porto seguro global, a deterioração institucional e a política econômica errática de Donald Trump alimentaram a queda do dólar. Após a posse do presidente Donald Trump, expectativas de um dólar forte durante seu mandato logo deram lugar a uma verdadeira “queda livre” da moeda americana ao redor do mundo. O “vai e vem” de políticas econômicas de Trump, principalmente na seara tarifária, alimentou a incerteza sobre o futuro do comércio e da estrutura econômica mundiais, além de elevar a percepção de risco institucional sobre a maior economia do mundo. Nesse contexto, ganharam força rapidamente questionamentos sobre a posição do dólar e ativos norte-americanos como porto seguros no mundo.

Nesse contexto, o Brasil passou a ser visto como um beneficiário relativo do “xadrez tarifário global”, atraindo parte do fluxo estrangeiro em busca de retornos além dos Estados Unidos – e fortalecendo nossa moeda. O aumento da aversão ao risco global também contribuiu para divergir a atenção de investidores do cenário doméstico fiscal, contribuindo para o arrefecimento da percepção de risco país.

A continuidade da rotação global, renovadas fontes de incerteza geopolítica e ativos visto como “baratos” no Brasil tem mantido o dólar fraco em 2026. O ano de2026 começou com tensões crescentes no âmbito geopolítico, incluindo ação militar americana na Venezuela, discussões sobre a soberania da Groenlândia e renovada instabilidade no Irã. Com os EUA no epicentro da incerteza, a desvalorização do dólar ganhou força mais uma vez, com o DXY atingindo o menor nível desde setembro de 2025 ao fim de janeiro. Na mesma linha, o movimento de rotação global também voltou a se fortalecer, gerando forte entrada de fluxos estrangeiros para o mercado brasileiro – contribuindo para o fortalecimento do real.

Para onde vai o dólar?
Como vimos, o último ano e o início de 2026 foram marcados por uma contínua valorização do real, impulsionada principalmente por fatores globais.
Olhando adiante, vemos pouco espaço para desvalorização adicional do dólar dos Estados Unidos a nível global. O Presidente Trump anunciou Kevin Warsh como próximo Presidente do Fed (o banco central americano). O mercado temia a escolha de um nome menos técnico e mais político. Uma decisão populista colocaria em risco o papel central do Fed como estabilizador do sistema financeiro e emprestador de última instância. Com Warsh na liderança do banco central, uma depreciação adicional do dólar a nível global nos parece improvável.
Domesticamente, as incertezas políticas locais – em meio às eleições presidenciais – tendem a manter pressionados os prêmios de risco de ativos brasileiros. Dessa forma, apesar do ponto de partida mais apreciado, nossa projeção para a taxa de câmbio ao final deste ano é de R$ 5,60 por dólar.
Conclusões
Como vimos, uma série de fatores de naturezas distintas influenciam os movimentos da taxa de câmbio — incluindo choques externos, incertezas domésticas e a deterioração dos fundamentos macroeconômicos.
A forte desvalorização do real ao longo de 2024, por exemplo, foi resultado tanto de eventos externos quanto domésticos. Esses incluíram expectativas sobre os juros nos Estados Unidos, a política monetária no Japão e incertezas político-fiscais no Brasil.
Já a valorização observada em 2025 deriva primordialmente de fatores globais. A política econômica errática de Donald Trump e o consequente questionamento sobre o papel do dólar e ativos americanos como portos seguros globais destaca-se como principal motor por trás da “queda livre” da moeda americana ano.
Olhando adiante, esperamos que o cenário doméstico volte a ganhar força como determinante da nossa taxa de câmbio, especialmente conforme nos aproximamos das eleições.
Diante de um ambiente ainda marcado por incertezas, no Brasil e no exterior, nossas recomendações refletem tanto as condições atuais do mercado quanto nossas expectativas para os próximos meses. Confira as sugestões dos nossos especialistas em nossa carteira mensal atualizada, disponível em nosso relatório “Onde Investir”.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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