O IPCA avançou 0,58% em maio, resultado acima da nossa projeção (0,54%) e acima do consenso Bloomberg (0,53%). Com isso, a inflação acumulada em 12 meses acelerou de 4,39% para 4,72%, voltando a se afastar do centro da meta e reforçando a leitura de que o processo de desinflação segue mais lento do que o desejável.
O dado do mês traz um contraste importante. Houve, de fato, algum alívio em serviços e em parte das medidas subjacentes do grupo, mas esse movimento foi mais do que compensado pela pressão em bens industrializados e por novas surpresas altistas em itens como gasolina e produtos de higiene pessoal (como os perfumes). Em outras palavras, a melhora na margem foi pontual e não chegou a alterar o quadro de uma inflação que segue resistente.
Por que a inflação subiu em maio?
A aceleração de maio teve vetores altistas concentrados em poucos grupos, mas relevantes. Entre as surpresas para cima, destacaram-se a gasolina e os itens de higiene pessoal, como perfumes, resultados que ajudam a explicar por que o índice cheio veio acima do esperado.
No bloco de preços administrados, houve nova surpresa altista, com a energia elétrica puxando o grupo após o acionamento da bandeira tarifária mais cara, a amarela. Já os bens industrializados se destacaram negativamente, mantendo-se como um dos principais focos de pressão do mês.
Do lado mais favorável, os serviços trouxeram algum alívio na margem, e parte das medidas subjacentes do grupo desacelerou ligeiramente. Ainda assim, esse alívio foi insuficiente para compensar as pressões vindas de administrados e de bens industrializados, de modo que o saldo do mês permaneceu desconfortável.
Meta de inflação: o que observar
O regime de metas de inflação é parte do que chamamos de política monetária — a política responsável pelo controle da quantidade de moeda na economia, que fica sob a responsabilidade do Banco Central.
Esse regime determina uma meta de inflação explícita e numérica (% ao ano), a ser perseguida pelo Banco Central. No caso brasileiro, a meta de inflação atual é de 3,0%. Isso significa que o Banco Central tem a responsabilidade de controlar a alta de preços de maneira contínua, de modo que ela se mantenha no ritmo de 3,0%.
O modelo brasileiro também inclui uma banda de tolerância de 1,50 ponto percentual para cima e para baixo. Essa banda serve para acomodar eventuais choques, como por exemplo uma seca que afete a produção de alimentos e eleve a inflação além do controle do Banco Central, ou uma crise geopolítica que pressione os preços de commodities.
Caso o IPCA se mantenha acima do limite de 4,5% por seis meses consecutivos, o presidente do Banco Central deve enviar carta ao Presidente da República indicando: i) os motivos do não atingimento da meta; ii) medidas planejadas para que a inflação retome à meta; e iii) o tempo projetado para que isso se concretize.
Com o IPCA acumulado em 4,72%, a inflação volta a superar o limite da banda, reforçando a necessidade de atenção aos números — especialmente porque o Banco Central iniciou o ciclo de corte da Selic em 2026, reduzindo a taxa para 14,5% ao ano. A decisão veio após meses de manutenção em 15%, e reflete sinais de moderação da atividade econômica e alguma melhora nas expectativas de inflação observados até o momento da reunião. No entanto, o resultado do IPCA de maio — divulgado às vésperas da próxima reunião do Copom — pode reacender o debate sobre o ritmo e a magnitude dos próximos cortes.
Núcleos e serviços
Os serviços são o componente mais sensível da inflação para a política monetária, porque tendem a responder de forma mais persistente ao mercado de trabalho aquecido e à inércia inflacionária. Em maio, o agregado de serviços subiu 0,40%, mesmo patamar dos serviços subjacentes (também 0,40%), medida que exclui os itens mais voláteis e ajuda a enxergar a tendência ligada a emprego e renda.
Esse alívio relativo, porém, convive com um pano de fundo ainda pressionado. Os serviços ex-passagem aéreas mantiveram-se bastante pressionados em 12 meses (de +5,46% para +5,44%), enquanto os serviços intensivos em trabalho — como restaurantes, cabeleireiros e consertos, mais sensíveis a salários — seguiram em +6,98% nessa mesma métrica. Em nossa avaliação, a combinação de mercado de trabalho resiliente e estímulos fiscais em curso continua sustentando uma inflação de serviços compatível com algo próximo de 6% em 2026 — patamar ainda elevado e parecido com o observado no ano passado.
Para entender a tendência, é útil olhar os núcleos. Os núcleos são medidas que retiram do índice os itens mais voláteis — como alimentos in natura e alguns preços administrados — justamente para revelar a parte mais “estrutural” e persistente da inflação, aquela que tende a continuar pressionando os preços ao longo do tempo. Em maio, a média dos núcleos avançou 0,45% no mês, em linha com a nossa projeção, mas as medidas de tendência pioraram na margem.
Aqui entra um conceito importante, a média móvel de três meses dessazonalizada e anualizada (3M SAAR). Em termos simples, ela pega a variação média das três leituras mais recentes, retira os efeitos sazonais típicos do período e responde à pergunta: “se esse ritmo recente se mantivesse por um ano inteiro, qual seria a taxa de inflação?”. Por isso, é uma forma mais limpa de captar o “ritmo do momento”. No caso de maio, a 3M SAAR da média dos núcleos subiu de 5,2% para 5,4%, permanecendo claramente acima da meta. Em 12 meses, os núcleos passaram de 4,39% para 4,54%.
A abertura individual também sugere persistência. As principais medidas de núcleo aceleraram, com destaque para o EX3. O EX3 é um dos núcleos calculados pelo Banco Central que exclui alimentação no domicílio e combustíveis e foca em um conjunto selecionado de itens de serviços e bens industriais, ou seja, busca isolar a inflação mais ligada à demanda interna e menos contaminada por choques de oferta. Sua taxa em 12 meses subiu de 4,44% para 4,69%. Além disso, a difusão permaneceu alta, sinalizando que a pressão inflacionária segue relativamente espalhada entre os diversos itens da cesta. Em conjunto, esses indicadores reforçam uma leitura de inflação subjacente ainda resistente.
Outros grupos relevantes
Na alimentação no domicílio, os preços subiram 1,65% em maio, ligeiramente abaixo da nossa expectativa (1,70%), mas com composição ainda pressionada. As principais surpresas altistas se concentraram em cereais, hortaliças e oleaginosas, enquanto carnes e frutas vieram abaixo da nossa projeção. O cenário prospectivo segue exigindo cautela, continuamos esperando alta relevante mais à frente, especialmente no último trimestre de 2026, em um cenário que incorpora El Niño. Assim, apesar do dado um pouco melhor, a leitura do grupo parece distante de sugerir alívio consistente.
Os bens industrializados se destacaram negativamente, com alta de +0,32% no mês. O ponto de maior atenção foram os bens industrializados subjacentes — que excluem os itens mais voláteis do grupo para captar a tendência mais persistente desses preços —, que avançaram 0,84%, acima da nossa projeção (0,64%). O pano de fundo segue desafiador, a alta recente do Brent, o repasse ainda em curso dos preços ao produtor e a persistência de pressões globais de custo em manufaturados já começam a aparecer com mais clareza nos preços ao consumidor. Por isso, seguimos esperando aceleração adicional à frente, e os bens industrializados subjacentes permanecem entre os principais focos de preocupação dentro da cesta.
Entre os preços administrados — itens regulados ou contratados, como energia elétrica, combustíveis e transporte público, cujos reajustes seguem regras e contratos e não a livre dinâmica de mercado —, houve nova surpresa para cima, com alta de 0,44% no mês, acima da nossa projeção (0,28%). O principal destaque foi a energia elétrica (+3,67%), também acima do esperado (3,40%), em razão do acionamento da bandeira amarela nas tarifas. Por outro lado, os combustíveis trouxeram algum alívio, com a gasolina recuando 1,46%, embora menos do que projetávamos (-2,20%), o que limitou a contribuição desinflacionária do grupo de transportes.
O que esperar da inflação à frente
Em síntese, o IPCA de maio veio acima do esperado, com composição ainda desconfortável. Houve algum alívio em serviços e em parte das medidas subjacentes, mas esse movimento foi mais do que compensado pela piora em administrados e, principalmente, pela persistência da pressão em bens industrializados subjacentes. Os núcleos seguiram em patamar elevado e a difusão permaneceu alta, reforçando a percepção de que a inflação continua resiliente.
Olhando à frente, mantemos nossa projeção de IPCA em 5,5% para 2026 e 4,2% para 2027, ambas com riscos de alta. No campo da política monetária, nosso cenário-base ainda contempla duas reduções adicionais de 0,25 p.p., levando a Selic para 14,00%. Ainda assim, as leituras mais recentes de inflação ao produtor e ao consumidor, somadas a um ambiente global mais inflacionário, tornam o quadro mais desafiador para o Banco Central, de modo que a continuidade do ciclo dependerá da confirmação de uma trajetória mais benigna nos próximos dados.
Como proteger seu patrimônio?
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos que protejam seu patrimônio dessa dinâmica espiral.
Abaixo, destacamos alternativas para esse objetivo.
- Títulos indexados à inflação (Tesouro IPCA+ / NTN-B): pagam juros reais acima da inflação, garantindo preservação do poder de compra no longo prazo. São indicados para objetivos de médio e longo prazo, como aposentadoria e formação de patrimônio.
Como ficam os investimentos atrelados ao IPCA?
Com resultado de maio, temos um resultado do IPCA em 4,72% em 12 meses, e a inflação segue acima da meta do BC (3,0%). Com a Selic em 14,5% e o cenário exigindo cautela, proteger seu patrimônio continua essencial.
Se você tivesse investido R$ 10 mil há 12 meses em um título atrelado à inflação pagando IPCA + 6% a.a., seu resultado seria:
- Inflação acumulada (IPCA 12m): 4,72% (aproximadamente 0,4% ao mês).
- Juros reais de 6% ao ano, equivalente a 0,5% ao mês.
- Rentabilidade total ao mês: 0,9%
Com um investimento de R$ 10.000,00, o valor total acumulado após 12 meses seria de R$ 11.135,10, antes da dedução do Imposto de Renda. Considerando o resgate do investimento, o valor líquido seria de R$ 10.908,08 — o que representa uma rentabilidade líquida de R$ 908,08 em um ano, aplicada em um título indexado ao IPCA.
A inflação impacta diretamente nosso dia a dia, reduzindo o poder de compra, especialmente quando está em alta. Por isso, é essencial ter exposição a investimentos atrelados ao IPCA, que ajudam a proteger sua rentabilidade contra a perda do valor real do dinheiro — principalmente em momentos como o atual, em que a inflação segue pressionada.
- Debêntures incentivadas: isentas de IR para pessoa física, remuneram com juros reais e podem oferecer retornos superiores aos títulos públicos, com o benefício fiscal aumentando o rendimento líquido.
- Crédito privado de emissores sólidos: CDBs, LCIs, LCAs e outros papéis de instituições com boa avaliação de risco, que oferecem prêmios adicionais sobre a renda fixa tradicional.
- Fundos imobiliários indexados à inflação: mesmo com maior volatilidade no curto prazo, podem gerar renda mensal ajustada pelo IPCA e diversificar o portfólio. São especialmente úteis para quem busca fluxo de caixa recorrente e proteção contra perda do poder de compra.
Ao diversificar entre essas classes, o investidor reduz riscos, mantém resiliência diante de diferentes cenários econômicos e preserva o valor real do patrimônio, afinal nem só de proteção contra a inflação devem viver os investimentos nesse momento. Por isso, confira o detalhe das nossas recomendações de investimento atualizadas de acordo com o seu perfil de investidor no “Onde Investir”.
Elaborado por:
Maria Giulia Soares, CNPI 10023
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