Por: Fernando Ferreira, estrategista-chefe no Research XP

Vimos ao longo do fim de semana o início de um novo conflito se iniciando no Oriente Médio, após os EUA e Israel lançaram ataques massivos contra o Irã e os líderes do seu regime. A morte do aiatolá Ali Khamenei e vários líderes Iranianos foi confirmada pela imprensa iraniana já no próprio sábado. Teerã, por sua vez, respondeu com mísseis e drones contra Israel e vários alvos no Golfo, enquanto o espaço aéreo da região sofreu interrupções relevantes, gerando caos no setor aéreo global, com mais de 3 mil voos cancelados e mais de 19 mil voos sofrendo atrasos, em um único dia.

Além disso, já vimos a quase total paralisação do fluxo de navios no estreito de Hormuz, por onde passam mais de 20% das exportações de petróleo no mundo. Nesse XPresso, iremos analisar os impactos desse conflito sob o preço dos principais ativos, e como você deve se proteger da volatilidade trazida por isso.

Na abertura dos mercados no domingo, vimos as Bolsas no Oriente Médio caindo entre 1-2%, e os futuros dos índices americanos caindo cerca de 1%. Já o petróleo Brent disparou 13% na abertura, para US$82/barril, e depois voltou para US$78/barril (+8%), enquanto o Ouro e a prata subiam mais 2,5%.

Historicamente, choques geopolíticos não têm impacto duradouro nos mercados

A evidência empírica de longo prazo é clara: em média, eventos geopolíticos tendem a derrubar os mercados de ações no curtíssimo prazo, mas os retornos tendem a convergir novamente para a normalidade em poucos meses. Um estudo do FMI mostra que somente episódios muito grandes e persistentes geram efeitos mais prolongados; caso contrário, a reação costuma ser pequena e de curta duração.

Vimos isso nos vários eventos geopolíticos recentes, como a guerra Rússia–Ucrânia e em outras tensões recentes no Oriente Médio, inclusive nas rodadas anteriores de ataques entre Israel e Irã.

Ações = Lucro das empresas. No fim do dia, o que dita a direção de uma ação é a tendência de lucro daquela companhia. Logo, a pergunta que fica é: “Como esse conflito afeta os resultados de Meta, Apple, Microsoft, JP Morgan, e por aí vai.

Aqui no Brasil, a pergunta é a mesma, como o conflito irá afetar os resultados do Itaú, da Vale e Petrobras, além dos setores domésticos? Se a resposta for “pouco impacto”, já sabemos que o efeito no mercado de ações tende a ser modesto e curto.

Mas três peculiaridades exigem atenção extra . No conflito atual, existem algumas peculiaridades que merecem atenção especial.

(1) Petróleo. O Irã produz acima de 3,1 milhões de barris de petróleo ao dia (bpd); a Venezuela, bem menos (c. 0,8–1,1 milhão bpd recentemente). Além disso, o Estreito de Hormuz é um gargalo por onde passam cerca de 20 milhões de bpd (algo próximo a 20% do consumo global de líquidos). Qualquer ameaça crível ao fluxo de petróleo e derivados na região eleva o prêmio de risco, fretes e seguros — e encarece o preço do barril de petróleo. A duração do conflito e impactos no escoamento de petróleo na região são pontos cruciais de acompanhar.

(2) Momento técnico/valuation. As bolsas globais já vinham esticadas, em nossa visão: o S&P 500 negocia a ~21,5x lucros à frente (acima das médias de 5 e 10 anos), e o múltiplo das bolsas globais também está elevado, em 19x. Isso deixa o mercado mais sensível a más notícias, e pronto para uma correção.

(3) Redução de riscos futuros no Oriente Médio? Se no conflito atual emergir um arranjo que reduza o risco estrutural na região — ex.: transição política no Irã, descompressão nuclear e um cessar-fogo amplo — o prêmio de risco geopolítico pode cair rápidamente, favorecendo uma melhora dos ativos de risco globalmente.

O curto prazo já mostra um certo “cabo de guerra” entre aversão à risco e a precificação de uma solução rápida na região.

  • Cripto: o Bitcoin caiu para ~US$ 63 mil logo após os bombardeios, mas virou e foi a US$ 68 mil quando a confirmação da queda de Khamenei e as primeiras leituras de contenção chegaram ao mercado.
  • Bolsas no Golfo: abriram no domingo com quedas fortes (Tadawul -4,6% na abertura; -~2% ao fim da manhã), Omã -~1,4%, Kuwait suspendeu negociações.
  • Polymarket: a Bolsa de apostas coloca que os mercados de “cessar-fogo EUA x Irã” precificavam ~66% de chance de acordo até 31/mar e ~71–78% até 30/abr — sinalizando aposta de solução em semanas, não em meses.

Impactos para o Brasil

No primeiro momento, os ativos no Brasil devem sofrer impactos do aumento de aversão à risco no mundo, mas acreditamos serem pequenos esses efeitos, além de terem uma duração curta. Afinal, o Brasil pode se beneficiar de uma alta do preço do petróleo em várias frentes, como na Bolsa e no câmbio. O cenário de risco se dá pelo impacto da alta do petróleo na inflação, caso isso chegue a impactar as expectativas de inflação, reduzindo assim o tamanho do ciclo total de cortes na Selic.

Petróleo. O setor de Óleo e Gás representa cerca de 13% do MSCI Brasil e 12% do Ibovespa, enquanto petróleo cru responde por cerca de 15% das exportações brasileiras. O Brasil já está produzindo quase 4 milhões de barris de petróleo por dia — e em alguns meses esse número até passa desse valor. Para 2026, a agência internacional que acompanha o setor estima que devemos ficar perto de 4 milhões por dia, em média. Em um cenário de Petróleo Brent mais forte e fluxo estável, o país é beneficiário líquido.

Fluxos. O Brasil vem se beneficiando da rotação dos investidores para fora dos EUA, junto com outros Emergentes. Em 2025, a Bolsa brasileira teve entradas líquidas de R$25 bilhões de estrangeiros. Em 2026, em apenas 2 meses, mais de R$41 bilhões já entraram na Bolsa Brasileira. Acreditamos que o cenário de alta no petróleo e conflito no Oriente Médio pode manter ou até acelerar a tendência de fluxos, após o impacto inicial de aversão à risco.

Banco Central e cortes de juros. O mercado atualmente precifica 300bps de corte na taxa Selic em 2026, de 15% para 12% ao final do ano. Além disso, a maior parte dos investidores ativos está sobre-alocada nos setores cíclicos domésticos e empresas que se beneficiem de juros mais baixos. Porém, caso a alta no petróleo altere o ciclo de desinflação atual, isso poderia mudar a trajetória dos juros no Brasil, e esse é um risco importante a se monitorar adiante.

Como navegar nesse cenário?

Tático (semanas):

  • Exposição ao setor de Óleo & Gás: quem está subalocado no setor de Energia pode usar ETFs, ações ou opções como hedges tático; quem já carrega overweight (posições acima do neutro) pode calibrar realização parcial.
  • Qualidade e liquidez: seguir priorizando empresas com alavancagem baixa, poder de preço (pricing power) e geração de caixa sólida — são as que melhor atravessam picos de volatilidade macro.

Estrutural (meses):

  • Volta aos fundamentos: monitorar revisões de lucro por setor e custo de capital. Se a trajetória de petróleo estabilizar e o conflito for curto, os preços tendem a voltar; se prolongar com disrupção de Hormuz, proteções e caixa podem fazer a diferença.
  • Brasil como “vencedor relativo”? Com petróleo relevante na pauta, produção em alta e desconto de valuation, os ativos brasileiros podem seguir se beneficiando da rotação para Mercados Emergentes.

Como temos dito, os investidores brasileiros seguem sub-alocados em ativos de risco, como ações domésticas e globais. Portanto, os eventos de volatilidade devem ser usados pensando em incremento das exposições em renda varíavel. Além disso, manter a diversificação da carteira em diferentes: 1) classes de ativos, 2) regiões e 3) moedas; e em ativos de qualidade é a melhor solução para navegar a volatilidade atual.

Elaborado por:

Bruna Sene, CNPI-T 6928

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