*por Pedro Simonetti, sócio da Giant Steps

No segundo artigo da parceria entre a Rico e a Giant Steps, vamos analisar um mantra clássico do mercado de fundos:  “É necessário avaliar a performance do fundo no longo prazo”.

Certo, mas isso é sempre verdade? E se for, após quanto tempo o prazo se torna longo?

Boa Leitura!

Se você já investiu (ou considerou investir) em um fundo de renda variável como multimercado, ações etc, com certeza já ouviu a seguinte frase: “é necessário avaliar a performance do fundo no longo prazo”.

Mesmo que essa frase já tenha se tornado senso comum, resta a dúvida: isso é “papo de vendedor” ou o longo prazo realmente descreve melhor a capacidade do gestor de entregar resultado?
           
E, ainda, o que é longo prazo? 6 meses? 1 ano? 2 anos? Uma década?

Neste artigo tentaremos responder às seguintes perguntas usando os números de alguns dos principais fundos da indústria brasileira:

  1. O investidor realmente se beneficia em manter sua posição por um período mais longo?
  2. Se sim, quanto tempo é necessário para que o timing do investimento e o ruído do mercado deixem de ser relevantes para se analisar o resultado?

Metodologia

Para obtermos uma amostra representativa da indústria de fundos multimercado brasileiros, utilizamos a carteira do segundo trimestre de 2021 do Índice de Hedge Funds da Anbima – IHFA.

O IHFA é uma carteira teórica composta pelos maiores fundos multimercado da indústria brasileira, re-balanceada trimestralmente.

A carteira selecionada é composta por 244 fundos. Para esse estudo, dada a necessidade de testarmos o efeito de históricos longos, utilizamos apenas os fundos abertos há 9 anos ou mais. Após esse filtro a amostra ficou com 44 fundos. Essa amostra chamaremos de amostra total.

Aplicamos uma metodologia de médias móveis para calcular a probabilidade que um investidor teria de obter um resultado maior que o CDI caso investisse nestes fundos em algum momento dos 9 anos.

Para visualizar o efeito da duração do investimento, variamos (no eixo horizontal) o período que o investidor fictício deixou seu dinheiro no fundo – de 10, 20, 30, 40… até 1600 dias úteis.

A ideia era encontrar evidências de que ao aumentar o número de dias que o investidor fica no fundo, aumentam-se as chances de obter resultados acima do CDI (não importando a data de entrada).

Longo prazo: balela ou benefício?

Abaixo estão os resultados encontrados.

  • Eixo vertical: probabilidade de o investimento estar acima do CDI.
  • Eixo horizontal: tempo (em dias) que o investidor segura a alocação no fundo.

*cada linha representa o percentual de janelas móveis acima do CDI de cada um dos 44 fundos da amostra da análise.

À primeira vista, não encontramos nenhum padrão significativo, o que poderia indicar que não há relação entre a duração de um investimento e o resultado obtido. Essa seria uma conclusão bastante contraintuitiva, que invalidaria a máxima citada no início do artigo de que um investimento deve ser analisado a longo prazo.

Entretanto, uma análise mais cuidadosa torna evidente um outro fator: existem diferenças gritantes de resultado nos fundos dessa amostra, por isso é difícil identificar um padrão claro no gráfico acima. Em outras palavras, estão na mesma amostra fundos que performaram bem e fundos que performaram mal.

No gráfico abaixo separamos apenas os 5 melhores e os 5 piores fundos da amostra. Foram considerados da categoria “melhores”, os 5 fundos que atingiram mais rapidamente o resultado de 100% das janelas acima do CDI. Chamaremos este grupo de TOP 5. Foram considerados “piores” os fundos que chegaram ao pior percentual de janelas acima do CDI ao final da análise.

Nesta segunda análise, fica clara a diferença no padrão de comportamento entre os melhores e piores fundos da amostra.

*cada linha representa o percentual de janelas móveis acima do CDI de cada um dos 10 fundos da amostra da análise.

No caso dos piores, quanto maior o período investido, maior a chance de se obter um resultado abaixo do CDI. Em outras palavras, insistir em um fundo desse grupo apenas piora as chances de um investidor de obter resultados satisfatórios, o que, após breve reflexão, é uma conclusão bastante óbvia. Nesse caso, o argumento do longo prazo não só é inválido, como também prejudica o investidor.

Por outro lado, para o TOP 5, a análise confirma a tese mais intuitiva apresentada no início do artigo. Em todos os casos há um aumento da probabilidade de se ganhar dinheiro com o fundo à medida que a janela de investimento cresce.

É interessante notar também que, para janelas muito pequenas, a probabilidade de se ganhar dinheiro – analisando qualquer fundo da amostra total – é pouco maior do que 50% (quase como jogar uma moeda para cima). Isto se dá pelo fato de que, para janelas pequenas, o timing do investimento e os ruídos do mercado influenciam demais na performance, atribuindo um caráter praticamente aleatório ao resultado final. Conforme a janela aumenta, a capacidade do gestor ganha relevância, minimizando os impactos de fatores randômicos no resultado.

O que podemos concluir com isso tudo?

Para bons fundos, confirmando o “senso comum” do mercado, temos fortes evidências de que o longo prazo beneficia significativamente os resultados obtidos pelo investidor. É importante notar que, neste estudo, não estamos levando em consideração os benefícios adicionais do longo prazo, como a redução tributária, por exemplo.

Para fundos que performam mal, surpreendentemente, o oposto se torna verdade. Quanto maior for a janela de investimento em um fundo underperformer, piores as chances de se obter resultados acima do CDI. O longo prazo, nesse caso, prejudica o investidor.

Quão longo é o longo prazo?

Estabelecemos que investimentos mais longos aumentam as chances de um investidor ganhar dinheiro em um bom fundo. Resta a definição: quanto tempo configura uma janela razoável de investimento para potencializar os bons resultados?

Para responder essa pergunta, filtramos da amostra total apenas os fundos que atingiram 100% de probabilidade para resultados acima do CDI, em algum momento. Nesta nova amostra, qualificam-se 19 fundos. Chamaremos esta amostra de TOP 19.

Dentro dessa nova amostra, nota-se novamente uma grande diferença entre os fundos. Enquanto alguns levam pouco tempo para atingir o patamar de 100% de probabilidade, alguns levam muitos anos.

Para efeito de comparação, fizemos a média do TOP 19 (azul escuro) e comparamos com a média do TOP 5 (verde).

Ao observarmos a média do TOP 19, janelas de 1 ano entregam uma probabilidade de 70% de se atingir um resultado acima do CDI. Janelas de 2 anos aumentam essa probabilidade para quase 78%, janelas de 3 anos para 86%, janelas de 4 anos para 93%, janelas de 5 anos para 98% e janelas de 6 anos para 100%

Analisando a média do TOP 5, janelas de 1 ano entregam probabilidade de 80%, janelas de 2 anos de 88% e janelas de 3 anos ou mais de 100%.

Esse estudo procura deixar claro que janelas de tempo maiores melhoram as probabilidades do investidor de obter bons resultados. Para fins práticos, é razoável (e significativamente benéfico) para um investidor estipular um horizonte mínimo de 2 a 3 anos para aplicações em fundos – isto é, desde que o trabalho de escolha do fundo/gestora tenha sido bem feito.

Resultados mais ambiciosos

No caso de fundos multimercado, resultados acima do CDI não são o bastante, em boa parte das vezes, para atender às expectativas dos cotistas. Isso é natural, uma vez que os investidores aceitam volatilidades maiores pela perspectiva de obter excesso de resultado contra o CDI.

Isto posto, nos indagamos: as análises feitas até agora neste artigo seriam capazes de demonstrar os mesmos efeitos do longo prazo para targets de retorno maiores?

Uma vez que a metodologia deste artigo não faz distinção entre meta de retorno e risco, não é justo comparar, por exemplo, um fundo com meta de retorno de CDI+2% com vol. 3% e outro com meta CDI+5% e vol. 8%.

Por essa razão, replicamos essa metodologia para um único fundo, o Zarathustra, que é um dos fundos da amostra total e possui um target de retorno compatível com o estudo. No gráfico a seguir, os eixos vertical e horizontal continuam representando, respectivamente, a probabilidade do investimento estar acima do CDI e o tempo (em dias) que o investidor segura a alocação no fundo. As três linhas nos ajudam a visualizar as performances acima de 100%, acima de 150% e acima de 200% do CDI.

Nesta nova análise, podemos perceber que o “efeito longo prazo” persiste, mesmo para objetivos de retorno maiores.

Vale ressaltar, no entanto, que os dados indicam que, quanto maior a meta de retorno do fundo, maior tende a ser o período mínimo necessário que o investidor deve manter a posição para conseguir maximizar a probabilidade de atingir seu target.

Conclusão

O argumento de que um investidor deve analisar uma aplicação no longo prazo, em detrimento de horizontes mais curtos, realmente faz sentido. Esse argumento, no entanto, deve sempre vir acompanhado de um asterisco: antes de definir a sua janela de investimento, esteja seguro de que você escolheu um bom fundo.

Considerando bons fundos, temos evidências suficientes de que, quanto maior for o horizonte do investimento, melhor representada no resultado estará a capacidade de geração de alpha do gestor – e menor a influência dos ruídos.

Tais conclusões se mantêm verdadeiras independente do target de retorno esperado.

Elaborado por:

Betina Roxo, CNPI 1493
Paula Zogbi, CNPI 2545

Este relatório de análise foi elaborado pela Rico Investimentos, que é uma marca da XP Investimentos CCTVM S.A. (“Rico”) de acordo com todas as exigências previstas na Resolução CVM 20/2021, tem como objetivo fornecer informações que possam auxiliar o investidor a tomar sua própria decisão de investimento, não constituindo qualquer tipo de oferta ou solicitação de compra e/ou venda de qualquer produto. As informações contidas neste relatório são consideradas válidas na data de sua divulgação e foram obtidas de fontes públicas. A Rico não se responsabiliza por qualquer decisão tomada pelo cliente com base no presente relatório. Este relatório foi elaborado considerando a classificação de risco dos produtos de modo a gerar resultados de alocação para cada perfil de investidor. O(s) signatário(s) deste relatório declara(m) que as recomendações refletem única e exclusivamente suas análises e opiniões pessoais, que foram produzidas de forma independente, inclusive em relação à Rico e que estão sujeitas a modificações sem aviso prévio em decorrência de alterações nas condições de mercado, e que sua(s) remuneração(es) é(são) indiretamente influenciada por receitas provenientes dos negócios e operações financeiras realizadas pela Rico. O analista responsável pelo conteúdo deste relatório e pelo cumprimento da Instrução CVM nº 598/18 está indicado acima, sendo que, caso constem a indicação de mais um analista no relatório, o responsável será o primeiro analista credenciado a ser mencionado no relatório. Os analistas da Rico estão obrigados ao cumprimento de todas as regras previstas no Código de Conduta da APIMEC para o Analista de Valores Mobiliários e na Política de Conduta dos Analistas de Valores Mobiliários do Grupo XP. O atendimento de nossos clientes é realizado por empregados da Rico. Os produtos apresentados neste relatório podem não ser adequados para todos os tipos de cliente. Antes de qualquer decisão, os clientes deverão realizar o processo de suitability e confirmar se os produtos apresentados são indicados para o seu perfil de investidor. Este material não sugere qualquer alteração de carteira, mas somente orientação sobre produtos adequados a determinado perfil de investidor. A rentabilidade de produtos financeiros pode apresentar variações e seu preço ou valor pode aumentar ou diminuir num curto espaço de tempo. Os desempenhos anteriores não são necessariamente indicativos de resultados futuros. A rentabilidade divulgada não é líquida de impostos. As informações presentes neste material são baseadas em simulações e os resultados reais poderão ser significativamente diferentes.
Este relatório é destinado à circulação exclusiva para a rede de relacionamento da Rico, podendo também ser divulgado no site da Rico. Fica proibida sua reprodução ou redistribuição para qualquer pessoa, no todo ou em parte, qualquer que seja o propósito, sem o prévio consentimento expresso da Rico. A Ouvidoria da Rico tem a missão de servir de canal de contato sempre que os clientes que não se sentirem satisfeitos com as soluções dadas pela empresa aos seus problemas. O contato pode ser realizado por meio do telefone: 0800 771 5454. SAC. 0800 774 0402. O custo da operação e a política de cobrança estão definidos nas tabelas de custos operacionais disponibilizadas no site da Rico: https://www.rico.com.vc/custos A Rico se exime de qualquer responsabilidade por quaisquer prejuízos, diretos ou indiretos, que venham a decorrer da utilização deste relatório ou seu conteúdo. A Avaliação Técnica e a Avaliação de Fundamentos seguem diferentes metodologias de análise. A Análise Técnica é executada seguindo conceitos como tendência, suporte, resistência, candles, volumes, médias móveis entre outros. Já a Análise Fundamentalista utiliza como informação os resultados divulgados pelas companhias emissoras e suas projeções. Desta forma, as opiniões dos Analistas Fundamentalistas, que buscam os melhores retornos dadas as condições de mercado, o cenário macroeconômico e os eventos específicos da empresa e do setor, podem divergir das opiniões dos Analistas Técnicos, que visam identificar os movimentos mais prováveis dos preços dos ativos, com utilização de “stops” para limitar as possíveis perdas. O investimento em ações é indicado para investidores de perfil moderado e agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela Rico. Ação é uma fração do capital de uma empresa que é negociada no mercado. É um título de renda variável, ou seja, um investimento no qual a rentabilidade não é preestabelecida, varia conforme as cotações de mercado. O investimento em ações é um investimento de alto risco e os desempenhos anteriores não são necessariamente indicativos de resultados futuros e nenhuma declaração ou garantia, de forma expressa ou implícita, é feita neste material em relação a desempenhos. As condições de mercado, o cenário macroeconômico, os eventos específicos da empresa e do setor podem afetar o desempenho do investimento, podendo resultar até mesmo em significativas perdas patrimoniais. A duração recomendada para o investimento é de médio-longo prazo. Não há quaisquer garantias sobre o patrimônio do cliente neste tipo de produto O investimento em opções é preferencialmente indicado para investidores de perfil agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela Rico. No mercado de opções, são negociados direitos de compra ou venda de um bem por preço fixado em data futura, devendo o adquirente do direito negociado pagar um prêmio ao vendedor tal como num acordo seguro. As operações com esses derivativos são consideradas de risco muito alto por apresentarem altas relações de risco e retorno e algumas posições apresentarem a possibilidade de perdas superiores ao capital investido. A duração recomendada para o investimento é de curto prazo e o patrimônio do cliente não está garantido neste tipo de produto. O investimento em termos é indicado para investidores de perfil agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela Rico. São contratos para compra ou a venda de uma determinada quantidade de ações, a um preço fixado, para liquidação em prazo determinado. O prazo do contrato a Termo é livremente escolhido pelos investidores, obedecendo o prazo mínimo de 16 dias e máximo de 999 dias corridos. O preço será o valor da ação adicionado de uma parcela correspondente aos juros – que são fixados livremente em mercado, em função do prazo do contrato. Toda transação a termo requer um depósito de garantia. Essas garantias são prestadas em duas formas: cobertura ou margem. O investimento em Mercados Futuros embute riscos de perdas patrimoniais significativos, e por isso é indicado para investidores de perfil agressivo, de acordo com a política de suitability praticada pela Rico. Commodity é um objeto ou determinante de preço de um contrato futuro ou outro instrumento derivativo, podendo consubstanciar um índice, uma taxa, um valor mobiliário ou produto físico. É um investimento de risco muito alto, que contempla a possibilidade de oscilação de preço devido à utilização de alavancagem financeira. A duração recomendada para o investimento é de curto prazo e o patrimônio do cliente não está garantido neste tipo de produto. As condições de mercado, mudanças climáticas e o cenário macroeconômico podem afetar o desempenho do investimento