• O fluxo de capital estrangeiro na Bolsa brasileira voltou a cair.
  • Inflação alta, piora do risco fiscal e incertezas políticas são as principais causas.
  • Mas isso não significa que estamos vivendo uma crise de fuga de capitais e que devemos “fugir para as montanhas”.
  • Hoje, as contas externas do Brasil são robustas, e nossa vulnerabilidade externa é muito menor.
  • Mas o momento atual pede cautela, e um passeio com seus investimentos rumo à diversificação fará muito bem.

Como um assíduo leitor do nosso Rico conteúdo, tenho certeza que você já deve ter ficado sabendo que os gringos andaram tirando o cavalinho da nossa chuva tropical por aqui nos últimos meses.  

Conforme nossos colegas da XP contam mais aqui, o fluxo de capital estrangeiro na Bolsa brasileira voltou a ser negativo no mês de setembro (em comparação com o mês anterior), com um saldo de R$ -4,8 bilhões.  

Apesar de dados preliminares de outubro apontaram para uma melhora, e o saldo no ano ainda ser positivo (acumula +R$71,8 bilhões) – ou seja, mais dinheiro gringo entrando do que saindo – as crescentes incertezas políticas, a inflação alta, a piora da percepção do risco fiscal e o próprio ambiente internacional de redução do apetite ao risco tem pesado bastante sobre os ativos brasileiros.

Calma, não é hora de fugir para as montanhas! (…)

Sabemos que essa saída de investidores estrangeiros da nossa bolsa não é um movimento positivo, especialmente porque os investidores “além-mar” ainda representam 50,6% do total na B3.

Porém, como nada em economia ou mercados é tão simples assim, essa piora no fluxo de estrangeiros na bolsa não quer dizer, necessariamente, que estamos vivendo uma crise nas contas externas, ou uma efetiva fuga de capitais no país.

A realidade é que, diferente do Brasil de algumas décadas atrás, ou mesmo de alguns outros países emergentes, hoje contamos com contas externas bastante robustas, que servem como uma importante âncora em momentos de mares revoltos, como o que vemos se formar no horizonte.

Contas externas: o que são, onde vivem, o que comem?

Quando falamos de contas externas, estamos nos referindo aos indicadores que demonstram a nossa relação como país com o resto do mundo. Ou seja, é o nome dado ao conjunto de indicadores que representam as transações comerciais e financeiras entre o Brasil e o restante do mundo.

Além disso, fazem também parte do conceito de contas externas os indicadores que refletem o que possuímos de passivos (dívidas) e ativos (“crédito”) em relação ao resto do mundo. Como, por exemplo, as reservas em moeda estrangeira – um ativo.

Os principais indicadores de contas externas utilizados incluem:

  1. Balanço de Pagamentos: aqui, temos as transações correntes (majoritariamente comércio), e a conta financeira – onde entram os investimentos, incluindo de portfólio (gringos na bolsa, fundos e renda fixa) e investimentos externos no país (multinacionais com presença aqui, por exemplo). 
  2. Reservas internacionais (nosso ativo): a verdadeira reserva de emergência do governo – em sua grande maioria, em dólares;
  3. Dívida externa (nosso passivo): aqui entra tanto dívida pública quanto privada (bancos e outras instituições).

Assim, a situação desses indicadores dirá muito sobre o nível de vulnerabilidade externa de um país. Ou seja, o quão protegido ele está de eventos inesperados no mercado internacional ou doméstico, que podem trazer volatilidade à economia e aos mercados – como, por exemplo, uma crise política que leva à saída brusca de capital estrangeiro do país, e a uma desvalorização muito forte e rápida da moeda.

Podia ser (muito) pior: comparando onde estamos, onde estivemos e outros estão

Para que tudo isso fique um pouco mais simples e palpável, vamos a algumas comparações dos principais indicadores de contas externas.

Faremos essa comparação entre o Brasil de hoje e o Brasil de alguns anos atrás, especialmente do início dos anos 2000 – quando tivemos um episódio de grande incerteza política e uma efetiva crise nas contas externas, que incluiu um processo forte de fuga de capitais.

Também faremos a comparação com um vizinho nosso que, infelizmente, enfrenta um grave problema de fuga de capitais e crise de contas externas hoje – a Argentina.

A reserva de emergência do governo

Como falamos acima, as reservas internacionais estão para o governo de um país (especialmente um país emergente), assim como a reserva de emergência está para uma carteira de investimentos bem equilibrada.

Assim, quanto maior for a percepção de risco do país e seu nível de endividamento externo, mais importantes se tornam suas reservas. Elas servem como uma segura e aconchegante “almofada contra riscos externos”.

Por serem um ativo, elas podem ser utilizadas em momentos de incerteza elevada, protegendo o país de situações extremas como desabastecimentos causados pelo encarecimento excessivo de moeda estrangeira. Sabe o mercado negro de dólar que ganha força de novo na Argentina, para que você possa comprar qualquer coisa? Bem isso. 

Como podemos ver no gráfico acima, as nossas reservas internacionais cresceram exponencialmente desde o início dos anos 2000. Como? Por meio de compra de moeda estrangeira ao longo do tempo, por parte do Banco Central. Em comparação, as reservas argentinas ensaiaram um aumento entre 2015 e 2019, antes de caírem novamente no período recente – em uma tentativa de controle da falta de oferta de moeda estrangeira no país.

Hoje, o Brasil acumula US$ 375,6 bilhões em reservas, o que equivale a mais de 20% do PIB (bastante acima de seus pares emergentes). Isso é mais do que suficiente para cobrir os US$ 302,3 bilhões da nossa dívida externa (pública e privada).

Ou seja, se por algum motivo apocalíptico (e totalmente hipotético) tivéssemos que pagar o total da nossa dívida externa, em um dia do nada, poderíamos.

Devo, não nego, e posso pagar

O gráfico abaixo ajuda a ilustrar o que mencionamos acima: nossos ativos externos hoje são mais do que o suficiente para cobrir nossos passivos. Ou seja, podemos pagar nossa dívida com os gringos.

Nesse ponto, vale lembrar que nossa dívida pública externa hoje é muito baixa, apesar de muita gente não saber que “internalizamos” boa parte da nossa dívida há alguns anos. Hoje, menos de 5% do total da dívida pública federal está em moeda estrangeira.

Já quando consideramos também dívida externa privada, ou seja, incluindo de instituições como bancos e empresas, esse número hoje está em 30% do PIB – nível também considerado sustentável, especialmente quando olhamos para nossos ativos (alou, reserva de emergência!).  

Já nossos hermanos, que em 2015 estavam ali bem próximos, podemos dizer que andaram “perdendo a mão no estrangeiro…”.

Nem só de bolsa vivem os gringos

Finalmente (para você que bravamente chegou até aqui nos indicadores), vamos ao número que gostamos por aqui: investimentos.

Como sabemos, os gringos andaram tirando um dinheiro da bolsa ultimamente. Mas isso não significa que todo investimento está caindo fora ou que, tão importante quanto, tem menos dinheiro entrando como investimentos do que precisamos para equilibrar com nossa dívida de “comprinhas” gringas.

Em economês, falamos da relação entre o saldo da nossa conta corrente (basicamente exportações menos importações) e o investimento direto no país – aquele investimento que veio para ficar (em fábricas de carros, por exemplo).

Como vemos no gráfico abaixo, o dinheiro gringo entrando aqui em forma de investimento de longo prazo (o IDP) tem se mantido mais do que suficiente para cobrir nossa dívida com o restante do mundo em transações comerciais (a tal da conta corrente).

(…) Mas um passeio equilibrado rumo à diversificação fará muito bem

Sim, contei uma longa (e espero que construtiva) história sobre o estado das nossas contas externas – que, para variar um pouco nesse cenário de incertezas, traz boas notícias.

É claro que isso não significa que não somos vulneráveis a movimentos como a saída de estrangeiros da bolsa, ou da desvalorização da nossa moeda. Mas sim, que não é hora de ligar o alerta vermelho, especialmente quando colocamos tudo em perspectiva.

Dito isso, o que fazer com seus investimentos? Primeiro, como sempre, não é hora nem há motivos para pânico!

Não é porque investidores estrangeiros estão saindo da bolsa, que você precisa desafazer suas posições e mudar sua estratégia de investimentos da noite para o dia, com medo de “ficar para trás”.

Ao mesmo tempo, o momento atual de incertezas tanto domésticas quanto do cenário internacional pede cautela. E a diversificação segue seu melhor aliado.

Assim, uma carteira com um bom equilíbrio entre renda fixa (para a qual o momento atual tem trazido ótimas oportunidades – confira aqui), veículos de investimento internacional, como BDRs, ETFs e fundos de investimento, além do bom e velho stock picking de empresas com alta qualidade e fundamentos sólidos (que escolhemos a dedo para você aqui), será a sua segura e aconchegante almofada conta riscos.

Elaborado por:

Betina Roxo, CNPI 1493
Paula Zogbi, CNPI 2545

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