• Você já parou pra pensar quantas coisas do dia a dia e do mundo dos investimentos a economia é capaz de explicar?
  • A taxa de juros que impacta suas dívidas e investimentos; o preço do dólar; a inflação que corrói seu salário.
  • O que leva a alta de preços e aos maiores juros? Por que o real desvaloriza, e o que as contas do governo tem a ver com seu dinheiro?
  • Fure a bolha desse assunto que parece espinhoso, entenda que nem é tanto, e por que ele é tão importante para o seu dinheiro.

Quando me perguntam sobre minha trajetória profissional e acadêmica, sempre reparo na surpresa das pessoas quando descobrem que demorei um tempo para descobrir meu caminho na economia – de descobrir que eu gostava daquela história de PIB, de juros, de câmbio.

Depois de algumas voltas, uma graduação e dois mestrados, hoje fico feliz em ver que sigo trilhando essa rota, e aprendendo sempre uma coisa nova desse universo que é a economia.

Mas por que estou contando tudo isso para vocês, e por que o título desse texto fala de uma tal de “bolha”?

Porque entendo que, assim como me sinto uma extraterrestre falando de assuntos como física quântica, nem todos são assim chegados na economia como eu. Por isso, caro leitor, vou te convidar a dar o primeiro passo para furar a bolha desse assunto que parece espinhoso, entender que nem é tanto, e porque ele é tão importante para o seu dinheiro.

Economês, pra que te quero?

Você já parou pra pensar quantas coisas do dia a dia e do mundo dos investimentos a economia é capaz de explicar (ou pelo menos ajuda)? Vamos a alguns exemplos…

Já se perdeu tentando entender a diferença entre ficar com a conta do banco no vermelho, pedir um empréstimo ou usar o cartão de crédito?

A economia explica: cheque especial tem maiores juros, por conta do maior risco de não pagamento. Cartão de crédito é ótimo, permite que o consumidor gaste sua renda “intertemporal” (o que chamamos da renda total ao longo da vida/de um período de uma pessoa). Mas não entre no pagamento mínimo, porque os juros são muito maiores, de novo por conta do maior risco de não pagamento. Já os empréstimos podem ajudar (costumam ter juros mais baixos, por conta de mais informações disponíveis sobre o cliente), mas entenda seus gastos e tente equilibrar.

Não entende por que há 15 anos rolava ir no cinema e comer um Big Mac, tudo com $ 10,00, e hoje isso não dá nem mais para uma pipoca pequena?

A economia explica: A alta dos preços (famosa inflação) faz com que o mesmo valor nominal (ou seja, os dez reais) não compre o mesmo após um tempo. Quando maior a inflação, mais rápido o processo – que chamamos de perda de poder de compra.

Mas por que os preços sobem?

A economia explica:

Pela oferta: falta de produtos ou insumos (causadas por questões como clima, eventos geopolíticos ou paralização de produção, como vemos hoje pela pandemia), que encarece o processo de produção de bens finais.

Pela demanda: mais gente querendo produtos, oferta segue a mesma? Preço sobe. Aumento de gastos do governo, que aumentam a demanda por bens e serviços como um todo (demanda agregada). Quando mais moeda em circulação, menor o valor dela.

Pelo câmbio: quanto mais desvalorizada a moeda doméstica, maior a inflação “da conversão”. A diferença de preço pela conversão do câmbio vale tanto para bens finais (como gasolina e carros importados), quanto para bens intermediários – a farinha para fazer o pãozinho francês. Em economia, chamamos esse efeito de “pass through”.

Pelas expectativas: expectativas de que? Sobre o próprio futuro dos preços. De maneira simplificada, isso ocorre pois quando aqueles que determinam os preços finais para o consumidor (seja um pequeno prestador de serviços de casa ou o dono de uma rede de restaurantes ou fábricas) acham que os preços ficarão mais altos por um tempo, eles não “esperam para ver”, e ficar para trás, certo? Então, eles já reajustam seus preços.

Essa verdadeira profecia autorrealizável é o que chamamos em economia de: expectativas de inflação. Elas são um dos principais fatores por trás da disseminação da alta de preços de um bem ou de um serviço pontual, para todos os outros na economia.

Economia explica: seus investimentos

Ainda para os não amantes da economia, lamento dizer que a economia não explica somente fenômenos do nosso dia a dia. Ela, assim como a política (sua melhor amiga), também explica muito dos movimentos que vemos nos investimentos.

Conceitos como taxa de juros e inflação são essenciais para entender como o comportamento dos preços podem impactar seus investimentos em renda fixa ou no mundo da renda variável.  

Ao olhar os dados econômicos de perto, sabemos que a expectativas de aumento de inflação, por exemplo, devem impactar negativamente os ativos pré-fixados (que tem uma taxa pré definida no momento do investimento), deixando papéis atrelados à inflação mais atraentes. Já uma discussão orçamentária nos corredores de Brasília impacta diretamente (mesmo que não pareça, à primeira vista) a nossa moeda, a bolsa e todo o resto dos nossos investimentos.   

Finalmente, até questões internacionais, como o movimento das taxas de juros nos EUA (como explicamos aqui) ou o crescimento do PIB na China impactam nossos investimentos por aqui. Você sabia que a China é nosso maior parceiro comercial, para quem vendemos boa parte de nossas commodities? O crescimento econômico chinês tende a valorizar esses produtos, impactando o que vendemos, nossa moeda, o setor de agronegócio (e suas ações), a economia…etc.

Pois é! Entender e acompanhar o cenário econômica se torna ainda mais importante em momentos como o atual, marcados pela incerteza, mas também por excelentes oportunidades.

Dito tudo isso, trago boas notícias para aqueles que já ficaram um tanto quanto preocupados que terão que entender em detalhes tudo isso: você não precisa de um doutorado em macroeconometria aplicada.

Isso porque nós ficaremos à cargo das “vírgulas e casas decimais” da divulgação de dados. Portanto, para você, caro leitor, podemos começar com alguns conceitos básicos, que já irão ajudar bastante a começar a furar essa bolha.

Pega sua agulha: 5 conceitos de economia que você precisa saber

A taxa Selic

A taxa Selic é a nossa taxa básica de juros. Ela não é chamada de “básica” à toa! E sim, porque ela é taxa de juros que serve de base para todas as outras taxas de juros da economia – nos investimentos, nos empréstimos, nos parcelamentos.

Assim, quando a taxa Selic subir, todos os outros juros da economia subirão também, gradualmente. E quanto a taxa Selic cair, as outras taxas de juros também tenderão a cair. É claro que há muitas outras questões que determinam o patamar dos juros de diferentes investimentos e modalidades de crédito no geral, como o risco de calote (de uma empresa, ou de uma pessoa). Mas uma coisa é certa: todos partem da taxa básica.

A taxa de juros é determinada pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central – o famoso Copom. E o que faz o Copom decidir sobre se sobe, reduz ou mantém a taxa Selic? O nível da inflação! Quanto mais alta a inflação, maior a Selic. Quanto mais baixa a inflação, menor a Selic.

Isso ocorre especialmente por meio do crédito, uma vez que o crédito mais caro tende a desaquecer a economia. Juros mais altos também afetam o câmbio, já que tendem a atrair mais capital estrangeiro, valorizando nossa moeda – impactando também a inflação (como contei lá em cima).

Te contamos em mais detalhes aqui como o Copom determina a taxa Selic a cada 45 dias, pois sabemos que toda decisão poderá afetar seus investimentos.

Inflação

Inflação nada mais é do que nome dado a um aumento contínuo e generalizado do preço de bens e serviços em determinada economia, em determinado período. O número mais utilizado no dia a dia quando falamos de inflação é o indicador acumulado em doze meses.

Por exemplo, a inflação em outubro de 2021 atingiu 10,67% se olharmos a variação dos preços de outubro do ano passado até outubro desse ano.

No Brasil, o principal índice de inflação é o IPCA – índice de preços ao consumidor amplo. Mas temos diversos outros índices. Cada um deles inclui uma cesta específica de bens e serviços, e o peso de cada um no indicador geral varia de acordo com quem está “sentindo essa inflação”.

O INPC, por exemplo, é composto por bens e serviços consumidos por famílias que ganham até 5 salários mínimos. Por isso, o peso da variação do preço de alimentos será maior no INPC do que no IPCA (que considera famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos). Por isso que o salário mínimo no Brasil é ajustado pelo INPC, e não pelo IPCA.

Outros indicadores medem preços ao produtor, por exemplo, como o IPA (índice de preços no atacado) e o INCC (índice de preços da construção civil).  

Já comentei ali em cima o que leva a alta e queda de preços em uma economia. Mas se você quer ainda mais sobre a inflação no Brasil, seus principais indicadores, e como impacta seus investimentos, clique aqui!

Taxa de câmbio

A taxa de câmbio nada mais é do que o valor da nossa moeda (no caso, o real) em relação a outras moedas (o dólar americano, por exemplo). Por isso, quando perguntamos “quanto vai estar o dólar”, o que queremos saber, de fato, é quanto será o valor do real em relação ao dólar no futuro. De maneira simplificada: “quanto custa um dólar, em reais”?

Esse movimento de sobe e desce no câmbio só é possível por vivermos em um regime de câmbio flutuante e de livre fluxo de capitais. Ou seja, o nosso câmbio valoriza e desvaloriza e o dinheiro é praticamente livre para entrar e sair do país. Do contrário, em um regime de câmbio fixo, o valor do real em relação ao dólar seria sempre o mesmo. Mas não se engane! Isso viria com uma série de desafios e potenciais problemas, como uma taxa de juros bastante alta por muito tempo.

Pode parecer surpresa, mas valor da nossa moeda impacta muito além da “viagem pra gringa”. Ele impacta a inflação (como falamos acima), ele impacta nossos investimentos, e ele impacta o quanto vendemos e compramos do resto do mundo – assim, nossa economia como um todo.

O patamar do câmbio (ou seja, “quão caro está o dólar”) vai depender de uma série de fatores, que vão desde o quanto compramos e vendemos do mundo, passando pelo nível da nossa taxa de juros, até incertezas políticas e fiscais.

Por isso, muitos dizem que “Deus criou o câmbio para tornar os economistas mais humildes”. Se você quer dar uma risadinha de nós, pobres analistas, e entender melhor sobre o que determina o câmbio, clica aqui!

PIB (Produto Interno Bruto)

O famoso PIB (sigla pra produto interno bruto) se refere, basicamente, à riqueza de determinada economia (como um país), medida por meio da produção de bens e serviços em determinado período.

Em outras palavras, o PIB é a soma de diversos fatores presentes na economia, como consumo das famílias (meu, seu e de todo mundo), gastos do governo (com saúde, educação, previdência, salários de servidores, etc) e investimentos.

Isso quer dizer que a manicure que eu fiz na semana passada, entra no PIB? Sim! O carro ou o armário produzido em fábricas entram no PIB? Sim! O dentista, o professor de escola pública, a cirurgia do SUS ou eu, aqui, produzindo conteúdo para a Rico, entram no PIB? Sim!

Certo. E o PIB impacta seus investimentos? Sim, especialmente por meio do crescimento da economia e da visão de investidores de quão arriscado é investir por aqui.

Quer entender mais sobre o PIB e como ele impacta seus investimentos? Clica aqui!

Contas públicas

Finalmente, mas não menos importante, falemos de contas públicas. O tal do “fiscal” – no Brasil, muito associado à percepção de risco em relação ao país.  

Uma maneira prática (e simplificada, claro) de entender o conceito das contas públicas é pensar em um orçamento familiar. Para o governo, o orçamento da família, no caso, são as contas públicas. Nessa comparação, o “salário” do governo seria a arrecadação com impostos e tributos. Já as despesas são os gastos públicos – com saúde, educação, previdência, salário de servidores públicos, obras, etc.

Se o governo gasta mais com bens e serviços do que ele arrecada, ele faz o que? Se endivida, assim como uma família.

Mas aí que está o pulo do gato: o governo pode se endividar muito mais do que uma família. Isso acontece, porque ele pode emitir dívida soberana, e eu você e todo mundo que compra títulos do Tesouro Nacional está financiando o governo.

Assim, podemos dizer que: as contas públicas são as contas do governo (o que ele arrecada, menos o que ele gasta), e o risco fiscal é o risco envolvido nessa transação de empréstimo de investidores ao governo.

Ou seja, os agentes de mercado acham que o governo brasileiro é um bom pagador? O risco é menor. Do contrário, o risco é maior.

Esse risco, por sua vez, engloba todo o risco que os agentes de mercado precificam na hora de emprestar dinheiro ao Brasil – seja por meio de títulos do governo ou dívida de empresas. Portanto, ele tem um impacto direto sobre todos os investimentos do país. Consequentemente, sobre o seu dinheiro.  

Clica aqui, que a gente te conta muito mais sobre o risco fiscal e como proteger seus investimentos.

Parabéns, se você leu tudo até aqui, você acaba de fazer um grande furo na bolha da economia! Um que certamente te ajudará a seguir furando outras bolhas no mundo dos investimentos.

Elaborado por:

Betina Roxo, CNPI 1493
Paula Zogbi, CNPI 2545

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