• Renúncia da primeira ministra, inflação acima de 10%, desvalorização da moeda.
  • Poderíamos muito bem estar falando do Brasil ou de outro país emergente. Mas esse é o cenário atual do Reino Unido.
  • Nesta análise, destacamos os principais fatores políticos e econômicos que levaram a terra do agora Rei Charles III ao cenário atual
  • E os seus investimentos com isso? Confira a seguir como a crise no Reino Unido impacta os seus investimentos aqui no Brasil.

A renúncia de uma primeira ministra em menos de 45 dias. Um pacote de congelamento de preços e corte de impostos em meio a uma inflação em praticamente 10% ao ano. A volta atrás desse mesmo pacote, após menos de um mês. Uma moeda rodando perto do seu menor valor na história (em relação ao dólar), e um Banco Central intervindo para tentar conter a volatilidade entre investidores e maiores estragos.

Gráfico histórico da Libra, moeda do Reino unido.

Poderíamos estar falando do Brasil ou outro país emergente, se não fosse a descrição do cenário político-econômico recente do Reino Unido – a sexta maior economia do mundo (após perder a posição do “top 5” para a Índia nesse ano).

Reino Unido: Brexit e o começo da virada da maré econômica

Para quem não tem acompanhado de perto a situação da economia na terra do agora Rei Charles III, esse texto pode estar parecendo esquisito. Afinal, estamos falando de um dos principais centros financeiros do mundo, e um país com passado econômico e institucional robusto. Tudo isso foi reflexo da sucessão monárquica?

Não. A verdade é que, muito além do triste – porém esperado – falecimento da Rainha Elizabeth II, o cenário político-econômico britânico foi marcado por uma série de desafios nos últimos anos, e o futuro não sinaliza perspectivas muito promissoras.

Em uma simplificada retrospectiva, podemos remontar o começo da virada da maré econômica britânica ao referendo que aprovou a saída do país da União Europeia, bloco econômico do qual fazia parte desde a formação de sua primeira versão (a Comunidade Econômica Europeia), em 1973.

Após um resultado que surpreendeu a todos – a aprovação do famoso Brexit – o cenário político no Reino Unido virou de cabeça para baixo, voltando-se totalmente para os preparativos para o “divórcio” com os vizinhos europeus. Novas legislações sobre temas como meio ambiente, mercado financeiro e comércio tiveram que ser criadas, tratados de livre comércio começaram do zero para negociação, o comércio com a Europa caiu drasticamente, e a economia começou a sofrer os impactos do fim da parceria de longa data.

De acordo com estimativas atualizadas do Departamento de Responsabilidade Fiscal (Office for Budget Responsibility), a saída da União Europeia deve reduzir o potencial de crescimento do Reino Unido em 4% no longo prazo – um impacto maior do que o estimado para a pandemia da covid-19.

Em bom português: a separação não parece ter sido uma boa ideia, a menos em termos econômicos.

A pandemia, a guerra e a inflação

Mal se concluíam as negociações com a União Europeia, e uma nova crise atingiu a economia britânica, assim como o resto do mundo. A pandemia da covid-19 derrubou o PIB do país em 9,3% – a pior performance entre seus “colegas” do G7 (grupo dos 7 países mais industrializados do mundo).

Gráfico demonstrativo do PIB do Reino Unido

O ano de 2021, porém, foi marcado por uma forte recuperação, e o Reino Unido viu seu PIB crescer 7,4%, também em linha com o restante do mundo desenvolvido.

Foi aí que a eclosão da guerra entre Rússia e Ucrânia voltou a trazer perspectivas negativas para o mundo todo, em especial para a Europa. E, mesmo fora do bloco comum europeu, o Reino Unido não foi exceção. O conflito impactou índices de confiança, aumentou a aversão ao risco em relação à região como um todo, além de afetar diretamente o preço de commodities – por envolver dois grandes produtores de insumos como trigo, fertilizantes e petróleo (e seus derivados, em especial o gás natural).

E então, chegamos ao momento atual, marcado por uma grave crise de preços e confiança. A inflação ao consumidor atingiu 9,9% no acumulado em doze meses até agosto, e projeções do próprio Banco da Inglaterra (Banco Central do país) apontam para 14% no ano que vem.

Gráfico histórico da inflação nos últimos 32 anos do Reino Unido.

Aqui, vale destacar a substancial alta dos preços de energia elétrica e gás. Apesar de o Reino Unido não depender tanto da importação da Rússia (como é o caso da Alemanha), o gás natural responde por 29% do total da matriz energética do país (acima da média global de 23%).

Assim, a alta nos preços internacionais da commodity afetaram muito o custo de vida de famílias britânicas. Para se ter uma ideia, 78% das famílias no país utilizam gás como principal fonte de aquecimento em suas casas (de acordo com dados atuais do Departamento de Energia e Estratégia Industrial). Imagine o impacto de uma alta de quase 100% no último ano? Não esqueça que o país é bastante gelado!

Gráfico ilustrativo das commodities do Reino Unido

Thatcher às avessas

Em meio a isso tudo, uma crise política abalou a administração do então primeiro-ministro Boris Johnson, que foi substituído por Liz Truss.

A então nova líder do Partido Conservador, comparada por muitos à Margareth Thatcher (ex primeira-ministra conhecida por suas políticas de livre mercado e austeridade fiscal), logo determinou sua principal estratégia para lidar com a inflação alta: o congelamento dos preços de energia no país.

Poucos dias depois, Truss anunciou um pacote agressivo de cortes de impostos, incluindo a redução da alíquota máxima do imposto de renda para pessoas físicas e a manutenção do menor nível de imposto de renda para empresas entre países do G20.

Juntos, os pacotes tiverem o custo estimado de mais de 150 bilhões de libras (aproximadamente R$ 870 bilhões).

Com a inflação já em níveis historicamente altos, o estímulo adicional à demanda por bens e serviços pressionaria ainda mais a inflação, eventualmente levando o Banco Central do país a subir ainda mais os juros. A alta de juros, por sua vez, tenderia a colocar mais lenha na fogueira da desaceleração econômica já em curso no país. Afinal, quanto mais altos os juros, maior o freio imposto à economia.

Gráfico da taxa de juros do Reino Unidos desde 2009

Além disso, os pacotes fiscais foram acompanhados da clássica pergunta: de onde virá o custeio do gasto adicional? A resposta – maior endividamento – por sua vez, pressiona as taxas de juros de longo prazo do país. Afinal, investidores passam a cobrar maiores juros de quem gasta (muito) mais do que arrecada.

Como era de se esperar, investidores anteciparam a elevada probabilidade desses movimentos, e o resultado foi a forte elevação da volatilidade nos mercados britânicos no último mês. Vimos a libra esterlina despencar ao seu menor valor da história, a bolsa cair e títulos públicos dispararem – esses últimos em tamanha magnitude, que apenas a intervenção do Banco Central impediu maiores estragos à importante indústria de fundos de pensão do país.

Foi então que, dias após recuar de praticamente todas as medidas anunciadas no pacote fiscal bilionário, Truss anunciou sua renúncia ao cargo de primeira ministra – consolidando seu papel como líder menos longeva da história do Reino Unido.

Liz Truss, primeira-ministra britânica, que renunciou ao cargo
Imagem: The Telegraph

Qual o impacto no Brasil e nos seus investimentos?

Olhando adiante, o cenário econômico e político do Reino Unido deve seguir bastante instável ao longo dos próximos meses. Ao menos até haver clareza sobre quem será a nova liderança no país e qual serão as prioridades e planejamento econômico para os próximos dois anos – quando haverá nossas eleições gerais.

Considerando os impactos além da terra do Rei, é claro que a forte incerteza em relação a sexta maior economia do mundo ajuda a alimentar a queda da confiança e aversão ao risco entre investidores.

Entretanto, não vemos grandes impactos do cenário doméstico britânico em nossa visão para a economia brasileira nos próximos anos. Apesar da importância global, o Reino Unido não tem tanta relevância em termos de relação comercial com o Brasil,  não figurando entre nossos 10 principais parceiros comerciais.

Quer saber mais sobre nossas perspectivas e projeções para a economia brasileira nesse ano e no próximo?

Quanto aos seus investimentos, a situação no Reino Unido não deve gerar impactos significativos para o seu dinheiro – a não ser que você tenha grande exposição ao país.

Dito isso, a incerteza vinda de países desenvolvidos acaba fortalecendo nossa visão construtiva para ativos brasileiros. Essa visão se baseia em uma série de fatores, incluindo principalmente:

  1. o fato de termos começado a subir os juros muito antes do que a maior parte dos países desenvolvidos, estando hoje com juros reais perto de 7% ao ano;
  2. termos uma bolsa composta principalmente de commodities e setor financeiro – dois setores com perspectivas positivas na atual conjuntura global; e
  3. seguirmos com ativos descontados – na bolsa, na renda fixa, na própria moeda.

Ainda assim, destacamos que é hora de ser mais cauteloso do que o usual e bastante seletivo na escolha de ativos, especialmente diante de tamanhas incertezas internacionais e domésticas (afinal, as eleições estão se aproximando).

Veja as recomendações da Rico e invista do seu jeito!

Elaborado por:

Paula Zogbi, CNPI 2545

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